Tereos aponta necessidade de ‘pedagogia’ no Brasil para impulsionar consumo de etanol e acelerar transição energética
O Brasil, apesar de possuir uma frota majoritariamente flex-fuel, ainda enfrenta desafios para expandir o consumo de etanol. Kristell Guizouarn, diretora global de sustentabilidade da Tereos Group, destaca a importância de um trabalho educativo para convencer os consumidores sobre os benefícios do biocombustível.
Guizouarn compara o cenário atual brasileiro com o da França há cerca de 15 anos, quando o ceticismo em relação aos biocombustíveis era mais acentuado. A executiva acredita que a falta de informação sobre o papel do etanol na transição energética e seus benefícios ambientais impede o pleno aproveitamento de seu potencial.
A executiva defende que a comunicação sobre o etanol deve focar cada vez mais em sua capacidade de descarbonização e como alternativa viável aos combustíveis fósseis. A experiência francesa, onde o E85 (mistura com 85% de etanol) é associado a vantagens ambientais, serve de modelo para o mercado brasileiro.
Desafios e Oportunidades no Mercado Brasileiro de Etanol
Mesmo com cerca de 85% da frota brasileira sendo flex-fuel, a demanda por etanol muitas vezes não acompanha a competitividade de preço em relação à gasolina. Guizouarn aponta que, assim como na Europa no passado, o consumidor brasileiro ainda carrega receios sobre potenciais danos aos motores ou impactos negativos do uso do etanol.
Superar esse ceticismo, segundo a diretora da Tereos, requer um esforço coordenado para demonstrar a segurança técnica e os benefícios ambientais do biocombustível. A França, após anos de trabalho educativo, superou barreiras semelhantes, com consumidores orgulhosos de utilizar um combustível associado a um menor impacto ambiental.
A estratégia da Tereos vai além da educação do consumidor. A empresa busca ativamente reduzir a pegada de carbono de sua produção de etanol, um diferencial cada vez mais valorizado por reguladores e clientes em um cenário global de crescente preocupação com as emissões.
Tereos Investe em Descarbonização e Práticas Regenerativas
A Tereos tem metas ambiciosas de descarbonização em suas operações globais, tanto agrícolas quanto industriais. Desde 2022, a empresa trabalha para reduzir emissões de gases de efeito estufa, com alvos específicos para 2032. Na área agropecuária, já alcançou uma redução significativa, aproximando-se da meta para a safra 2025/26.
Na Europa, a empresa incentiva a agricultura regenerativa entre seus membros cooperados, oferecendo suporte técnico e financeiro, além de pagar um prêmio para agricultores que adotam práticas que reduzem emissões. Essa iniciativa já atraiu cerca de 10% dos membros.
No Brasil, embora ainda não haja um sistema de prêmios para produtores por corte de emissões, a Tereos tem expandido práticas regenerativas em suas operações. Cerca de dois terços das terras geridas pela empresa no país já utilizam alguma forma dessas práticas, com destaque para o uso de vinhaça como fertilizante e a adoção de insumos biológicos.
Inovação e Novos Mercados para o Etanol
As práticas regenerativas adotadas no Brasil têm se mostrado eficazes em aumentar a resiliência das operações a eventos climáticos extremos. Felipe Mendes, diretor de sustentabilidade da Tereos no Brasil, relata que, mesmo diante de secas severas, a perda de produção foi significativamente menor em comparação a anos anteriores.
A expertise desenvolvida no Brasil em sustentabilidade está sendo transferida para outras operações da Tereos globalmente. Na Indonésia, por exemplo, a empresa adaptou um sistema de monitoramento de sustentabilidade de culturas agrícolas desenvolvido por uma startup brasileira.
Além do mercado de combustíveis para veículos, a Tereos explora novas fontes de demanda para o etanol. Um foco promissor é o mercado de combustível de aviação sustentável (SAF), onde a empresa busca se posicionar através de parcerias estratégicas, como a joint venture com Airbus e Safran.
Conclusão Estratégica Financeira: Etanol e o Futuro da Energia
A estratégia da Tereos de educar o mercado, descarbonizar a produção e explorar novos mercados como o SAF demonstra uma visão de longo prazo para o etanol. Economicamente, o investimento em práticas sustentáveis e a diversificação de aplicações podem gerar valor adicional, protegendo a empresa contra a volatilidade dos preços das commodities e a crescente pressão regulatória por combustíveis de baixo carbono.
O risco reside na velocidade da adoção pelo consumidor e na consolidação de políticas de incentivo. No entanto, as oportunidades são significativas, especialmente com a crescente demanda global por soluções energéticas mais limpas. Para investidores e gestores, a leitura do cenário indica um potencial de valorização para empresas que lideram a transição energética no setor de biocombustíveis, com efeitos positivos em margens e valuation.
A tendência futura aponta para um mercado de etanol cada vez mais atrelado à sua pegada de carbono e à sua versatilidade em aplicações além do transporte rodoviário. O cenário provável é de maior diferenciação entre produtores, com aqueles que investem em sustentabilidade e inovação colhendo os frutos de um mercado em transformação.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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