São Martinho enfrenta trimestre desafiador com queda projetada no Ebitda; excesso de etanol pressiona preços, diz Citi
A São Martinho, uma das gigantes do setor sucroalcooleiro, se prepara para um trimestre financeiro com resultados abaixo do esperado. A decisão da empresa de reter estoques de açúcar e etanol na expectativa de uma recuperação de preços no final da safra 2026/27, que se encerra em março, deve impactar diretamente seus números no período que terminou em junho.
Analistas do Citi revisaram suas projeções para a companhia, antecipando um cenário de “números mais baixos”. A estratégia da São Martinho, que conta com uma significativa capacidade de armazenagem de etanol, esbarra na realidade de um mercado interno saturado. O excesso de oferta do biocombustível limita as chances de uma valorização expressiva no curto prazo.
Mesmo com a recente elevação da mistura de etanol na gasolina para E32, a manutenção do subsídio federal ao combustível fóssil tende a estabilizar os preços da gasolina, o que, por sua vez, pode não ser suficiente para impulsionar a demanda por etanol a ponto de reduzir o excedente de forma substancial. Essa conjuntura leva o banco a manter uma visão cautelosa sobre as ações da empresa.
Fonte: InfoMoney
Ebitda em Queda e Excedente de Etanol: A Visão do Citi
Os analistas Gabriel Barra e Pedro Gama, do Citi, estimaram uma queda de 36% no Ebitda da São Martinho em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, projetando o valor em R$ 513 milhões. A capacidade de tancagem de etanol da empresa, que poderia ser um diferencial, não encontra, segundo o banco, um ambiente favorável para a valorização do produto no curto prazo.
O “enorme excedente” de etanol no mercado interno é o principal fator que preocupa o Citi. A expectativa é de que a oferta supere a demanda, pressionando os preços para baixo e dificultando a estratégia da São Martinho de realizar vendas mais rentáveis no futuro. A liquidez do mercado para o biocombustível pode ficar comprometida.
A entrada em vigor do E32, que eleva a mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, é vista como um movimento positivo para escoar o excedente. Contudo, o subsídio federal à gasolina, que mantém seu preço artificialmente baixo, pode mitigar o impacto positivo no consumo de etanol, frustrando as expectativas de uma recuperação mais robusta.
Recomendação Neutra e Preço-Alvo para SMTO3
Diante deste cenário, o Citi manteve a recomendação neutra para as ações da São Martinho (SMTO3). O preço-alvo estabelecido pelo banco é de R$ 16, o que representa um potencial de valorização de 7,6% em relação à cotação atual de R$ 14,86. Essa projeção reflete uma cautela com os resultados de curto prazo, mas reconhece um potencial de recuperação.
A análise do Citi também aponta para um fluxo de caixa livre recorrente baixo para a São Martinho nas safras 2026/27 e 2027/28, estimado entre zero e 3%. Esse indicador é crucial para avaliar a capacidade da empresa de gerar caixa após cobrir seus custos operacionais e investimentos.
O banco também destaca que os investimentos em expansão da produção de etanol de milho estão consumindo caixa no curto prazo. Isso, somado à redução esperada no Ebitda, tende a elevar o índice de alavancagem da companhia, que mede a relação entre a dívida líquida e o Ebitda.
Investimentos em Etanol de Milho e Estrutura de Capital Sólida
A São Martinho está direcionando R$ 1,1 bilhão para a ampliação de sua capacidade de produção de etanol de milho na unidade de Quirinópolis (GO). O projeto inclui a construção de um armazém de milho com capacidade para 240 mil toneladas e melhorias na geração de energia. Além disso, serão necessários R$ 230 milhões em capital de giro.
Com previsão de conclusão no segundo semestre de 2027, a nova planta adicionará 270 mil metros cúbicos anuais à capacidade de produção de etanol de milho, elevando o total para 485 mil metros cúbicos por ano. Este investimento visa diversificar a produção e aproveitar a crescente demanda por biocombustíveis.
Apesar das pressões de curto prazo, a São Martinho demonstra uma estrutura de capital robusta, o que lhe permite realizar esses investimentos estratégicos. Em 31 de março, o índice de alavancagem da companhia era de 1,41 vez, considerado confortável. A empresa possuía R$ 4,2 bilhões em caixa e uma dívida bruta de pouco mais de R$ 9 bilhões.
Conclusão Estratégica Financeira
A estratégia da São Martinho de segurar estoques em um cenário de preços voláteis pode ser arriscada no curto prazo, como aponta o Citi. A queda projetada no Ebitda e o aumento da alavancagem decorrente dos investimentos em etanol de milho são riscos que merecem atenção. No entanto, a solidez da estrutura de capital da empresa oferece uma rede de segurança para esses investimentos de longo prazo.
A oportunidade reside na futura valorização dos preços de açúcar e etanol, caso a expectativa da companhia se concretize. A expansão da produção de etanol de milho também sinaliza uma aposta em um mercado em crescimento e com potencial de margens mais atrativas. Para investidores, a recomendação neutra do Citi sugere cautela, ponderando os desafios atuais com o potencial de recuperação futura.
A leitura do cenário indica que a São Martinho navega em águas turbulentas no curto prazo, mas com uma visão estratégica clara para o médio e longo prazo. A capacidade da empresa de gerenciar seu caixa e sua dívida durante o período de investimentos será crucial para sua performance futura. A tendência é que a volatilidade nos preços das commodities continue a ser o principal driver dos resultados da empresa.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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