Café Brasileiro em Rota de Recorde: A Safra que Anuncia Bons Ventos, Mas Alerta para os Tempestuosos Ventos do El Niño
Os primeiros indícios da colheita de café de 2025/26 apontam para um cenário de otimismo, com expectativas de uma safra recorde que pode impulsionar o agronegócio brasileiro. Especialistas reunidos no 25º Seminário Internacional do Café, em Santos (SP), compartilharam análises que confirmam a alta produtividade das lavouras, um feito que se deve a uma combinação de fatores climáticos favoráveis durante o ciclo e a investimentos estratégicos dos produtores.
Apesar da euforia inicial, o setor cafeeiro já começa a traçar cenários de atenção. As projeções climáticas para o segundo semestre indicam um possível agravamento do fenômeno El Niño, levantando preocupações sobre o impacto na qualidade e quantidade da produção futura. Este contraste entre um presente promissor e um futuro incerto exige um olhar atento dos investidores e produtores.
Além dos fatores climáticos, a instabilidade geopolítica global, especialmente a guerra no Irã, lança uma sombra sobre a cadeia de suprimentos de insumos agrícolas, como fertilizantes. A volatilidade nos preços e a dificuldade de planejamento estratégico para aquisição desses insumos adicionam uma camada extra de complexidade à já desafiadora gestão do agronegócio cafeeiro.
Produtividade em Alta: Números que Impressionam e Fatores de Sucesso
As estimativas para a safra 2025/26 de café no Brasil são robustas. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revisou sua projeção para 66,7 milhões de sacas, um aumento expressivo de 18% em relação à safra anterior, configurando um novo recorde histórico. O setor privado, contudo, apresenta previsões ainda mais ambiciosas: o Rabobank projeta 73,3 milhões de sacas, a StoneX estima 75,3 milhões e o Itaú BBA prevê 72,5 milhões de sacas, indicando um forte consenso sobre o potencial da safra.
Claudio Delposte, analista sênior do Rabobank, atribui esse bom desempenho a dois pilares fundamentais. Primeiramente, o clima colaborou com condições hídricas adequadas para o desenvolvimento das lavouras. Em segundo lugar, o produtor cafeeiro brasileiro, beneficiado por cotações elevadas nos anos anteriores, pôde investir em adubações mais eficientes e corretas, otimizando a produtividade.
O Rabobank também aponta uma expansão de 1,94% no parque cafeeiro do país nesta safra, com destaque para as regiões de Matas de Minas e áreas de arábica no Espírito Santo. Embora essas novas áreas levem de dois a três anos para começar a produzir frutos, a expansão demonstra a confiança do setor no futuro da cafeicultura brasileira.
Ritmo Acelerado e Diversidade Regional na Colheita de Café
A colheita dos cafés tipo conilon e robusta, conhecidos como canéforas, já está em pleno vapor na Bahia, Espírito Santo e Rondônia desde abril, com previsão de término em setembro. Carlos Santana, diretor comercial da EISA Interagrícola, informa que o ritmo está adiantado, com Rondônia já tendo colhido 35% de sua produção total. Essa antecipação pode ser um indicativo de um ciclo produtivo eficiente.
Já a colheita do café arábica, predominante em estados como São Paulo, Sul de Minas, Triângulo Mineiro, Cerrado Mineiro e partes do Espírito Santo, iniciou em maio e deve se estender até meados de outubro. A diversidade de épocas de colheita entre os tipos de café e as regiões brasileiras contribui para a resiliência do setor, permitindo que uma safra robusta seja consolidada mesmo diante de desafios pontuais.
Marina Marangon, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, observa que, embora ainda seja cedo para conclusões definitivas, as lavouras demonstram uma produtividade notável. No entanto, ela menciona relatos de produtores sobre grãos mais finos, o que pode impactar a peneira de classificação, um ponto também observado por Claudio Delposte, do Rabobank.
El Niño: O Risco Climático que Testa a Resiliência do Setor Cafeeiro
As atenções do mercado cafeeiro agora se voltam para as projeções de intensificação do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2025. Segundo Delposte, do Rabobank, as previsões indicam um cenário de chuvas acima da média no Sul do Brasil, enquanto o Norte e a Amazônia podem enfrentar déficits hídricos. O Sudeste, por sua vez, é apontado como a região mais vulnerável, com risco de ondas de calor e pancadas de chuva intensas.
Marangon, do Itaú BBA, ressalta que essas previsões climáticas ainda não foram precificadas pelo mercado internacional, o que significa que o impacto nas cotações atuais é limitado. Contudo, ela alerta que um El Niño forte pode gerar secas em importantes regiões produtoras de café como Ásia e Colômbia. No Brasil, o risco imediato para a safra atual se restringe a um inverno mais chuvoso, que poderia afetar a reta final da colheita, com potenciais danos aos frutos e perda de qualidade.
Ambos os analistas concordam que o maior risco do El Niño se estende para a safra 2026/27. Chuvas acima do normal no segundo semestre de 2025 poderiam comprometer a florada e o enchimento dos grãos, afetando diretamente a produção futura. Oscar Schaps, da StoneX, levanta a hipótese de um lado positivo, com menor risco de geadas até depois da colheita, mas Delposte contrapõe, afirmando que o histórico não mostra uma correlação direta entre El Niño e ausência de geadas.
Geopolítica e Insumos: A Outra Face da Incerteza no Mercado de Café
Além das incertezas climáticas, o cenário geopolítico global representa uma variável de difícil controle para os cafeicultores brasileiros. A guerra no Irã, por exemplo, tem impactado o transporte marítimo e, consequentemente, a relação de troca dos fertilizantes, insumo essencial para a produção de café. Marina Marangon, do Itaú BBA, aponta para a possibilidade de flutuações nos preços de matérias-primas relevantes, como a ureia, que já apresentou recuos após disparadas recentes.
Essa volatilidade, impulsionada pela indefinição sobre a duração do conflito, cria um ambiente de incerteza para o planejamento de compra de insumos. Carlos Santana, da EISA, expressa preocupação com o adiamento das decisões de compra por parte dos produtores, que tradicionalmente ocorre entre setembro e outubro. A dificuldade em compor um preço médio para insumos essenciais, somada a um consenso de ambiente inflacionário, pode gerar um “efeito manada” prejudicial.
Santana defende uma reação mais rápida dos compradores brasileiros diante da “agenda da guerra”, buscando formar preços médios mais estáveis para a aquisição de insumos. A complexidade da cadeia de suprimentos, afetada por assimetrias decorrentes do conflito, tem gerado dúvidas tanto em produtores quanto em empresas do setor, evidenciando a interconexão entre eventos globais e a economia local.
Conclusão Estratégica Financeira: Navegando entre Oportunidades e Riscos na Cafeicultura
A safra recorde de café em 2025/26 apresenta uma oportunidade clara de receita para produtores e exportadores, impulsionada por volumes expressivos. No entanto, os riscos associados ao El Niño e à instabilidade geopolítica criam um cenário de volatilidade que exige prudência. A potencial redução na qualidade dos grãos e a incerteza na disponibilidade e custo de fertilizantes podem impactar as margens de lucro e a competitividade brasileira no mercado internacional.
Para investidores e empresários do setor, a diversificação geográfica de investimentos e a busca por contratos de hedge que protejam contra a volatilidade de preços e insumos são estratégias cruciais. A capacidade de adaptação e a antecipação a possíveis cenários adversos, como a escassez de fertilizantes ou a queda na qualidade do grão, serão determinantes para a manutenção da rentabilidade e do valuation das empresas cafeeiras.
A tendência futura aponta para um mercado cada vez mais influenciado por fatores climáticos e geopolíticos. O cenário provável é de maior volatilidade, exigindo dos gestores financeiros uma gestão de risco mais sofisticada e uma análise contínua das projeções climáticas e do cenário internacional. A construção de uma cadeia de suprimentos resiliente e a otimização dos custos de produção serão fundamentais para que o Brasil mantenha sua posição de liderança no mercado global de café.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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