O Sucesso das Megafusões no Setor de Shoppings: Lições de Integração e Valor para Acionistas
Fusões e aquisições (M&A) são frequentemente anunciadas com promessas grandiosas de sinergias, ganhos de escala e valorização para os acionistas. No entanto, a realidade pós-acordo costuma apresentar desafios significativos na integração de equipes, alinhamento cultural e concretização das projeções financeiras. Muitas dessas uniões acabam por enfrentar obstáculos que levam a resultados aquém do esperado, ou até mesmo a um “divórcio” corporativo.
Neste cenário complexo, a experiência de Daniella Guanabara, atual diretora financeira e de relações com investidores da Allos (ALOS3), oferece um estudo de caso valioso. Ela esteve no centro de duas das maiores operações de fusão no setor de shoppings no Brasil: a união entre Aliansce e Sonae Sierra Brasil, e posteriormente, a fusão entre Aliansce Sonae e brMalls, que culminou na formação da maior plataforma de shoppings do país.
Guanabara atuou como “IMO” (Integrator Manager Officer) em ambas as transações, um papel crucial para conectar as diferentes culturas e estratégias das empresas envolvidas. Sua participação ativa e liderança na condução desses processos complexos a tornaram uma referência em como transformar M&A de eventos de alto risco em motores de crescimento sustentável.
Money Times foi o veículo que trouxe detalhes sobre a experiência da executiva, que compartilhou seus aprendizados em entrevista ao programa Money Minds.
A Experiência Acumulada como Chave para o Sucesso
Segundo Daniella Guanabara, o principal fator por trás do sucesso da integração mais recente, que uniu Aliansce Sonae e brMalls, foi a experiência prévia adquirida na fusão anterior. “O grande segredo, por incrível que pareça, foi ter feito uma fusão antes”, afirmou a executiva. Essa vivência permitiu que a equipe estivesse mais preparada para os desafios inerentes a um processo de integração.
Quando a união entre Aliansce Sonae e brMalls foi anunciada, o mercado reagiu com cautela, dada a natureza intrinsecamente arriscada das fusões. Contudo, três anos e meio após a conclusão da operação, Guanabara avalia que a empresa não só superou essa desconfiança, como também demonstrou consistência em seus resultados. “Todos os trimestres desde a fusão foram trimestres com crescimento de resultado. Acho que a gente já se consolidou como uma empresa pós-fusão”, declarou.
A primeira integração serviu como um verdadeiro treinamento, preparando a equipe para a segunda. “O tamanho era maior, mas o passo um, dois e três que você vai fazer é muito parecido”, explicou. A preparação meticulosa para a segunda integração foi fundamental para mitigar riscos e garantir a fluidez do processo.
A Importância Crucial da Liderança Sênior na Integração
Um dos aprendizados mais significativos de Guanabara reside na seleção das pessoas responsáveis por liderar o processo de integração. Ela ressalta que delegar essa tarefa a equipes muito juniores é um erro comum que pode comprometer o sucesso da operação.
“Uma das dicas que eu dou é ter pessoas seniores coordenadas”, enfatiza. A executiva explica que é essencial que os líderes da integração tenham a autoridade e a experiência necessárias para lidar com as lideranças das empresas fusionadas, pois “você vai ter que dizer não para muita gente”.
Processos de integração demandam decisões difíceis, reestruturação de equipes, definição de prioridades e, frequentemente, a gestão de conflitos entre áreas. A capacidade de impor respeito e tomar decisões firmes é vital para o integrador. “E essas pessoas vão ter que te respeitar porque você é a pessoa da integração”, acrescenta.
Guanabara defende que a integração não é um trabalho paralelo, mas sim uma atividade que exige dedicação exclusiva e um investimento de tempo relevante. “Tem que ter uma dedicação imensa. É um percentual de tempo relevante que você vai investir numa integração”, ressalta.
Preparação Antecipada: O Trabalho Começa Antes da Aprovação
Outro aprendizado fundamental destacado pela diretora é a importância da preparação antecipada, que se inicia mesmo antes da aprovação definitiva da fusão. No caso da união entre Aliansce Sonae e brMalls, equipes das duas empresas começaram a trabalhar em aspectos cruciais da futura integração cerca de seis meses antes da conclusão formal da operação.
Durante esse período, houve um esforço conjunto para uniformizar indicadores operacionais e financeiros, definir métricas comuns e alinhar as bases da futura companhia. “Durante seis meses trabalhamos com equipe sênior para tentar uniformizar todos os KPIs financeiros e operacionais”, conta Guanabara.
Essa antecipação estratégica trouxe resultados imediatos. No primeiro balanço após a conclusão da fusão, a empresa conseguiu divulgar números consolidados acompanhados de bases históricas comparáveis, o que minimizou incertezas para investidores e analistas. “A gente deu muita transparência para o mercado”, afirma, demonstrando o valor de uma comunicação clara e proativa.
O Desafio Cultural: Construindo uma Nova Identidade
Enquanto a integração de processos e sistemas pode ser planejada com mais previsibilidade, a integração cultural se revela como o desafio mais complexo. Para Guanabara, este foi o principal obstáculo na união das equipes.
“Essa pergunta é ótima e é o grande desafio”, respondeu ela ao ser questionada sobre a criação de sinergias entre equipes de origens distintas. A solução encontrada pela Allos foi mudar o foco da discussão, afastando-se das divergências iniciais e concentrando-se em um objetivo comum.
Em vez de se prender às diferenças inerentes a cada organização, a estratégia foi reformular a questão central. “Quando você compara o ponto de partida, em geral uma parte pensa de um jeito e outra parte pensa de outro. Aí tem divergência”, explicou. A empresa propôs a seguinte reflexão: “o que você imagina que essa empresa vai ser daqui a cinco anos?”
Ao direcionar a conversa para ambições futuras e visões compartilhadas, como “ser a melhor empresa de shopping do Brasil”, “ter a melhor experiência para o consumidor” e “resultados crescentes”, as convergências começaram a emergir com mais facilidade. Foi a partir desse exercício colaborativo que nasceu a “cultura Allos”.
“Quando você começa a perguntar onde as pessoas querem chegar, a convergência é muito maior do que no ponto de partida”, concluiu. Essa abordagem permitiu a construção de uma nova cultura organizacional, baseada em aspirações comuns e um futuro compartilhado.
Conclusão Estratégica: Lições de Integração para o Mercado Financeiro
As duas megafusões lideradas por Daniella Guanabara na Allos oferecem lições valiosas sobre a gestão de M&A no setor de shoppings e no mercado financeiro em geral. A experiência demonstra que o sucesso de uma integração não reside apenas na capacidade de unir ativos e operações, mas fundamentalmente na habilidade de integrar pessoas e culturas.
O impacto econômico direto dessas fusões se traduz em maior escala operacional, otimização de custos e potencial de crescimento de receita através de sinergias. Indiretamente, a consolidação do setor pode levar a uma maior eficiência e a um ambiente competitivo mais estruturado, beneficiando consumidores e investidores a longo prazo.
Os riscos envolvidos em processos de integração são significativos, incluindo a perda de talentos-chave, a resistência cultural e a dificuldade em atingir as sinergias projetadas. No entanto, as oportunidades de criar valor substancial para os acionistas, fortalecer a posição de mercado e impulsionar a inovação são igualmente expressivas.
Para investidores e gestores, o modelo da Allos sugere que a atenção à liderança sênior, à preparação antecipada e à construção de uma cultura organizacional coesa são fatores críticos. O foco em objetivos futuros compartilhados, em detrimento de divergências pontuais, emerge como uma estratégia eficaz para alinhar equipes e impulsionar o desempenho.
A tendência futura aponta para a continuidade de consolidações em diversos setores, onde a capacidade de gerenciar integrações complexas será um diferencial competitivo cada vez mais valorizado. Empresas que dominarem essa arte estarão mais bem posicionadas para capturar valor e sustentar o crescimento em cenários de mercado dinâmicos.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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