Crise no Setor Sucroalcooleiro: Déficit de Adubação em Canais Ameaça Safras 2027/28 e 2028/29 com Impacto Financeiro Severo
A cadeia produtiva da cana-de-açúcar enfrenta um cenário financeiro adverso, com produtores sofrendo com a queda nos preços do açúcar e do etanol, enquanto os custos de produção disparam. Essa pressão econômica tem levado a uma redução drástica na aplicação de fertilizantes, uma prática essencial para a saúde e produtividade dos canaviais.
Especialistas alertam que essa medida, embora uma tentativa de alívio financeiro a curto prazo, pode ter consequências graves para as safras futuras. A diminuição do investimento em adubação é vista como um segundo passo na deterioração dos canaviais, que muitas vezes começa com o não replantio de áreas degradadas.
A conjuntura atual, agravada por conflitos geopolíticos e instabilidade nos mercados de commodities, configura uma “tempestade perfeita” que exige atenção e estratégias de adaptação por parte de todos os elos da cadeia produtiva. A situação financeira dos produtores de cana está cada vez mais fragilizada, com margens negativas que impactam diretamente suas decisões de investimento.
Produtores de Cana-de-Açúcar Pressionados por Custos e Preços Baixos
A situação financeira dos produtores de cana-de-açúcar deteriorou-se significativamente nos últimos meses. A queda na cotação do açúcar no mercado internacional, aliada à estagnação da produtividade dos canaviais, já criava um cenário desafiador. Para o etanol, a competitividade é ainda mais afetada pela política de incentivos à gasolina, especialmente em anos eleitorais.
O conflito no Oriente Médio intensificou essa crise, elevando os custos de insumos essenciais como fertilizantes e diesel. José Guilherme Nogueira, CEO da Orplana, entidade que representa os fornecedores de cana, descreve a situação como uma “tempestade perfeita”. Segundo a Orplana, a margem do produtor de cana, que já era negativa em R$ 18 por hectare no início do ano, saltou para R$ 40 por hectare após os eventos recentes.
“A alta nos custos começou no reajuste dos fretes em 2025. Em paralelo, a cotação do açúcar não reage, pelos altos estoques. Como em qualquer negócio, o produtor não investe diante de um preço futuro que não será bom”, explicou Nogueira ao The AgriBiz. Essa realidade tem levado muitos a cortar drasticamente a aplicação de fertilizantes, em alguns casos em até 60%.
Redução Drástica na Aplicação de Fertilizantes e Impacto na Produtividade
Diante da pressão financeira, a redução na aplicação de fertilizantes tornou-se uma medida de sobrevivência para muitos produtores. Essa prática, no entanto, é vista com grande preocupação por especialistas, pois compromete diretamente a saúde e o vigor dos canaviais.
Em algumas regiões, a situação é tão crítica que os produtores estão até mesmo adiando a aplicação de calcário, um insumo básico e de baixo custo para correção da acidez do solo. “O produtor começa a buscar alternativas. Retirar fertilizantes e insumos é a forma mais rápida, embora não recomendada, para aliviar o caixa estressado”, comentou Nogueira.
Embora as usinas, geralmente mais capitalizadas, sejam menos afetadas diretamente, a queda na produtividade dos canaviais já preocupa a indústria. Felipe Vicchiato, CFO da São Martinho, alertou que, se os preços baixos e os custos altos se mantiverem, a produção de cana para o próximo ano será significativamente menor.
Renovação de Canais e Preocupações com o Futuro da Produção
A queda na aplicação de fertilizantes agrava um problema já existente: os baixos índices de renovação dos canaviais. Em condições ideais, cerca de 20% a 25% da lavoura deveria ser renovada anualmente, um processo que envolve custos consideráveis de restauração e manutenção.
Com uma produtividade média no Centro-Sul estimada pela Orplana em R$ 9,5 mil por hectare, muitos produtores já vinham adiando essas renovações antes mesmo da escalada dos custos. A redução no uso de fertilizantes, segundo Wiliam Hernandes, sócio da consultoria FG/A, deve ser de 5% a 10% menor que em 2025, que já foi um ano de recorde negativo em aplicação.
A expectativa é que a redução nos investimentos em adubação comprometa a produtividade futura, afetando o perfilhamento das plantas, a tonelada de cana por hectare (TCH) e o teor de açúcar total recuperável (ATR). “Tudo isso deverá impactar a produção”, avalia Nogueira.
Custo de Fertilizantes Dispara e Relação de Troca Deteriora-se
O principal motor do aumento nos custos de produção tem sido a disparada nos preços dos fertilizantes, especialmente os fosfatados e nitrogenados, essenciais para a cultura da cana. O diesel também contribui significativamente para essa alta, especialmente após os recentes fechamentos de rotas comerciais no Oriente Médio.
Renata Cardarelli, especialista em Grãos e Fertilizantes da Argus, destaca a dependência da cana por fertilizantes nitrogenados, como o nitrato de amônio. A Rússia, principal fornecedora, restringiu suas exportações até maio, elevando ainda mais os preços.
O preço da ureia, por exemplo, saltou de US$ 480 por tonelada para US$ 850 em abril, recuando para a faixa de US$ 535 a US$ 565. “Diante da relação de troca ruim, os importadores têm optado por postergar ou reduzir as compras. A disponibilidade de matérias-primas segue muito volátil”, conclui Cardarelli.
Conclusão Estratégica Financeira: Um Cenário de Alerta para o Agronegócio
O déficit de adubação nos canaviais representa um risco direto para a rentabilidade e a sustentabilidade do setor sucroalcooleiro nas próximas safras. A redução no investimento em insumos essenciais pode levar a uma queda significativa na produtividade, afetando as margens de lucro e a receita de produtores e usinas.
Para investidores e gestores, o cenário atual exige cautela e uma análise aprofundada dos riscos associados à volatilidade dos preços das commodities e ao aumento dos custos de produção. A fragilidade financeira dos produtores pode abrir oportunidades para aquisições ou parcerias estratégicas, mas também aumenta o risco de inadimplência e recuperação judicial, como ilustra o caso do Grupo LL Agro.
A tendência futura aponta para a necessidade urgente de reequilíbrio na cadeia produtiva, com estratégias que busquem mitigar a volatilidade dos custos e garantir preços mais justos para os produtos. Sem intervenções e adaptações significativas, o setor pode enfrentar um período prolongado de dificuldades, impactando a economia como um todo.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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