Copom Sinaliza Continuidade nos Cortes de Juros Apesar da Guerra, Mas Ajuste no Ciclo é Possível, Diz Fabio Kanczuk
O Banco Central (BC) parece determinado a prosseguir com o ciclo de cortes na taxa básica de juros, a Selic, mesmo diante da persistência do conflito no Oriente Médio. A sinalização, contudo, aponta para uma possível adequação no escopo e na duração desse ciclo de redução, conforme avalia Fabio Kanczuk, diretor de macroeconomia do ASA e ex-diretor de Política Econômica do BC. A guerra, que já completou dois meses, introduz incertezas que podem levar o Comitê de Política Monetária (Copom) a encerrar o ciclo de cortes antes do previsto inicialmente.
Em entrevista recente, Kanczuk destacou que a autoridade monetária tem comunicado sua intenção de continuar com as reduções, mas ajustando o plano de voo para um ciclo potencialmente mais curto. Essa adaptação visa mitigar os efeitos de choques externos, como a escalada dos preços do petróleo, sem, no entanto, paralisar o processo de afrouxamento monetário. A decisão mais recente do Copom, que cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, foi unânime e marcou a segunda redução consecutiva.
A projeção do ASA, casa de investimentos de Alberto Safra, para o fim de 2026 aponta para uma Selic em 13,50% ao ano. Isso sugere que o ritmo de cortes de 0,25 ponto percentual por reunião pode ser mantido até dezembro. A leitura de Kanczuk é que o BC continuará a reduzir os juros até atingir o patamar considerado adequado para o cenário atual, priorizando a continuidade dos cortes em detrimento de uma pausa abrupta, mas ajustando o alcance total do ciclo de afrouxamento.
A análise de Kanczuk sobre o comunicado do Copom ressalta a inclusão da palavra “extensão” ao lado de “ritmo” na descrição do ciclo de cortes. Essa nuance sugere que, em vez de simplesmente alterar a velocidade da redução, o BC pode optar por encurtar o período total de cortes caso o cenário geopolítico se deteriore significativamente. Essa comunicação está alinhada com declarações anteriores de diretores do BC, que indicavam a possibilidade de ajustar a “extensão” do ciclo, em vez de interromper os cortes.
A Guerra e a Flexibilidade do Copom na Política Monetária
A persistência do conflito no Oriente Médio levanta questões sobre a possibilidade de o Banco Central ter de pausar a queda de juros prematuramente. Kanczuk interpreta a comunicação do Copom como uma sinalização de que o BC está ciente dos riscos, mas acredita que o nível atual dos juros ainda permite cortes. A menção à “extensão” no comunicado indica que, se o cenário se agravar, o comitê poderá encerrar o ciclo de cortes mais cedo, mas não necessariamente paralisar os cortes de imediato. A prioridade parece ser manter o ritmo de 0,25 ponto percentual, mas com um horizonte de atuação mais curto.
A visão de Kanczuk é que o BC está em uma fase onde a comunicação verbal sobre a necessidade de juros mais baixos ganha proeminência sobre as projeções numéricas, que podem ser menos relevantes. A mensagem principal seria de que os juros estão “muito altos” e há espaço para cortá-los, mesmo com a guerra. Contudo, a magnitude e a duração desses cortes dependerão da evolução do cenário externo, especialmente no que tange ao preço do petróleo e à inflação global.
Projeções de Inflação e o Impacto na Trajetória dos Juros
O aumento das projeções de inflação para os próximos anos, mesmo que ainda abaixo da meta em alguns prazos, pode influenciar o espaço para novos cortes na Selic e, potencialmente, alterar a postura do Banco Central. Kanczuk observa que a projeção de inflação do BC para 2027, que subiu para 3,5%, está acima da meta de 3,0% para aquele ano. Isso pode ser interpretado como uma indicação de que o BC está calibrando suas expectativas diante dos choques inflacionários globais.
Ainda assim, o ex-diretor do BC acredita que a autoridade monetária está confiante na sua capacidade de controlar a inflação e, portanto, de continuar cortando juros. A sua leitura é que o modelo de projeção se torna secundário neste momento, dando lugar à comunicação clara de que o nível atual da Selic é restritivo e permite reduções. A preocupação com a inflação é real, mas não parece ser um impedimento para a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário.
Cenário Base do ASA: Petróleo, Juros e Inflação
Para projetar os cenários futuros, o ASA utiliza a curva futura do petróleo como um proxy para as expectativas do mercado sobre a evolução da guerra no Oriente Médio. Essa abordagem, semelhante à utilizada pelo próprio BC, sugere que o preço do barril de petróleo deve retornar a níveis em torno de US$ 80 em um horizonte de seis a doze meses. Isso indica que o mercado não espera uma intensificação drástica do conflito que leve a choques de oferta de petróleo mais severos.
No entanto, os efeitos de segunda ordem do choque do petróleo já são visíveis, com projeções de inflação subindo até 2028, o que pode indicar um descolamento das expectativas inflacionárias. O BC tem sido vocal ao expressar essa preocupação. No cenário base do ASA, a Selic deve encerrar 2026 em torno de 13,50%, com o IPCA situando-se entre 5% e 5,5% no mesmo período.
Conclusão Estratégica Financeira: Navegando a Incerteza com Foco na Selic
A sinalização do Copom de que os cortes na Selic continuarão, mesmo com a guerra, mas com um possível encurtamento do ciclo, apresenta um cenário de incerteza moderada para os investidores. O impacto econômico direto reside na continuidade do barateamento do crédito, o que pode estimular o consumo e o investimento, mas a inflação global e a instabilidade geopolítica representam riscos que podem limitar a magnitude e a velocidade dessas reduções. Para as empresas, a queda dos juros pode aliviar o custo financeiro, mas a volatilidade dos preços das commodities e a dinâmica inflacionária exigem cautela na gestão de custos e precificação.
Oportunidades financeiras podem surgir na renda fixa, com a expectativa de juros ainda em patamares elevados por um período, e na renda variável, caso a percepção de risco diminua e o ciclo de corte de juros se mostre robusto. A tendência futura aponta para um Banco Central que buscará equilibrar o combate à inflação com a necessidade de estimular a economia, ajustando sua política monetária conforme a evolução dos choques externos. O cenário provável é de um ciclo de cortes mais curto, mas com reduções consistentes, sujeito a revisões conforme os desdobramentos geopolíticos.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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