Queda no Preço do Café no Varejo Aumenta o Consumo no Brasil, Segundo a Abic
O Brasil, maior produtor mundial de café, tem observado um aumento significativo no consumo interno. A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) aponta que a queda nos preços de varejo tem sido o principal motor dessa expansão, incentivando os consumidores a comprarem mais do produto.
Entre maio e agosto deste ano, o consumo de café no país registrou um crescimento de 4,65% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Essa tendência de alta se manteve mês a mês, com destaque para um salto de 13,94% em julho, indicando uma recuperação após um declínio de 2,2% em 2025.
Com base no desempenho observado até agosto, o presidente da Abic, Pavel Cardoso, estima um aumento de cerca de 2,5% no consumo de café brasileiro em 2026. Essa projeção pessoal sugere a adição de aproximadamente 500.000 sacas de 60 kg ao total do ano anterior, elevando o consumo doméstico para 21,9 milhões de sacas.
A principal força por trás do aumento no consumo tem sido a deflação nos preços do café para o consumidor final. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os preços do café no varejo brasileiro caíram 17,2% nos 12 meses encerrados em agosto. Essa redução abrangeu todas as categorias, com o café tradicional e extraforte apresentando a maior queda (21,22%), enquanto cápsulas tiveram a menor retração (1,39%).
O diretor executivo da Abic, Celírio Inácio, explicou que essa queda nos preços de varejo reflete a diminuição dos custos pagos pelos processadores pelo café verde, que por sua vez acompanham as cotações internacionais das commodities. Pesquisas da Abic confirmam uma correlação direta entre o preço do café cru para os processadores e o preço oferecido aos supermercados, permitindo promoções e estimulando o mercado.
Dados do Cepea/Esalq, da Universidade de São Paulo, corroboram essa tendência. Comparando o final de agosto de 2025 com o mesmo período de 2026, os preços domésticos do café arábica, referência para os processadores, caíram 32,8%, enquanto os de robusta despencaram 50%. Essa dinâmica de preços mais baixos para a matéria-prima tem permitido que os varejistas ofereçam o produto a preços mais atrativos.
Pavel Cardoso também destacou uma mudança nas estratégias de estoque da indústria. Nos últimos anos, especialmente após a geada de 2021 e o consequente aumento da volatilidade dos preços, as empresas passaram a manter estoques menores. Há cinco ou seis anos, o tempo de cobertura de estoque era de oito a 12 semanas, mas agora estima-se que tenha caído para cerca de quatro a sete semanas. Essa redução visa limitar o custo de capital imobilizado em estoques, permitindo maior agilidade na adaptação a custos de matéria-prima em declínio.
Apesar do cenário positivo de consumo, o setor coffee brasileiro está atento aos riscos. A potencial influência do fenômeno El Niño nas próximas safras é uma preocupação. Temperaturas elevadas e clima seco podem prejudicar o desenvolvimento dos grãos, impactando a disponibilidade e, consequentemente, os preços pagos aos produtores. Os meses de novembro e dezembro, quando ocorre a frutificação, e janeiro e fevereiro, cruciais para o desenvolvimento e enchimento dos grãos, são de especial atenção.
Por outro lado, a indústria enxerga oportunidades em novos produtos e bebidas à base de café, especialmente as versões frias. Tendências observadas nos mercados dos EUA, Europa, Japão e China, como bebidas prontas para beber (RTD), cold brew e o uso de café como ingrediente em barras de proteína, podem ganhar espaço no Brasil.
Cardoso acredita que, em um país tropical como o Brasil, a demanda por esses produtos frios deve crescer, complementando o consumo de café quente durante os meses mais quentes e impulsionando o volume total. Essa adaptação às preferências do consumidor, inclusive no ambiente doméstico, é vista como um caminho para o crescimento.
A Abic também prevê uma mudança na composição das misturas de café vendidas no varejo brasileiro a partir de 2027, com uma maior participação das variedades canephora, como robusta e conilon. Essa tendência reflete o ciclo produtivo do café, com uma safra de arábica esperada como menor e uma produção de conilon mais forte no próximo ano, após uma safra de arábica forte e uma de conilon abaixo do esperado neste ano.
Alguns analistas de mercado acreditam que o Brasil pode superar a produção de Vietnam em volume até 2030, com a área plantada de canephora em expansão. Essa perspectiva pode levar a uma menor pressão de preços para o conilon no futuro.
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Análise Financeira: O Impacto da Queda de Preços e a Volatilidade no Mercado de Café
A atual conjuntura de queda nos preços do café no varejo brasileiro, impulsionada pela redução nos custos da matéria-prima, representa um cenário de duplo impacto para o setor. Por um lado, o aumento do consumo doméstico sugere uma expansão do volume de vendas e, potencialmente, da receita total para as empresas que conseguirem capitalizar sobre a demanda crescente.
Por outro lado, a margem de lucro por unidade vendida pode ser comprimida se a redução de preços no varejo não for acompanhada por uma diminuição proporcional nos custos de produção e processamento. A gestão de estoques mais enxuta, embora reduza o custo de capital, pode expor as empresas a riscos de desabastecimento em caso de choques de oferta inesperados, como os associados a eventos climáticos extremos.
A volatilidade de preços, um fator de risco já presente, pode ser exacerbada por fatores como o El Niño. Para investidores e gestores, a diversificação de portfólio e a análise criteriosa das estratégias de hedge e de gestão de risco das empresas cafeeiras tornam-se cruciais. A capacidade de adaptação a novas tendências de consumo, como as bebidas frias, e a exploração de novos mercados e produtos podem oferecer oportunidades de crescimento e diferenciação.
Minha leitura do cenário é que a indústria de café no Brasil está em um ponto de inflexão. A combinação de preços acessíveis para o consumidor e a busca por eficiência operacional cria um ambiente propício para o crescimento do volume. No entanto, a gestão da volatilidade de custos e a adaptação às mudanças climáticas e às preferências do consumidor serão determinantes para o sucesso a longo prazo. A tendência de maior participação de variedades como o robusta no mix de produtos pode alterar a dinâmica de custos e precificação, exigindo atenção contínua dos agentes do mercado.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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