Bancões reforçam reservas contra inadimplência em meio a cenário econômico adverso: o que isso significa para BBAS3, ITUB4, SANB11 e BBDC4?
A temporada de resultados do segundo trimestre de 2026 para os grandes bancos brasileiros trouxe um misto de boas notícias e sinais de alerta. Embora os lucros consolidados tenham apresentado alta, o expressivo aumento nas provisões para créditos de liquidação duvidosa (PDD) acende um sinal amarelo para o futuro da qualidade do crédito no país.
Os cinco maiores bancos do país (Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, Banco do Brasil e BTG) somaram R$ 30 bilhões em lucros, um avanço de 11,1% em relação ao ano anterior. Contudo, o montante destinado a cobrir potenciais calotes saltou de R$ 40 bilhões para R$ 47 bilhões em apenas um trimestre, um aumento de 17,5%.
Essa disparidade entre o crescimento dos lucros e o aumento das reservas sugere que a deterioração do cenário econômico, com juros altos e endividamento crescente de famílias e empresas, já está sendo sentida pelas instituições financeiras. Minha leitura é que os bancos estão se antecipando a um período de maior inadimplência.
A fonte principal para este artigo é o levantamento da Elos Ayta e análises do Bank of America, além de comentários de especialistas como Rafael Dadoorian, sócio fundador da Convexas. Informações adicionais foram obtidas através de:nome do veículo
Aumento das Provisões e Indicadores de Risco em Destaque
O Bank of America aponta que as provisões cresceram acima das carteiras de empréstimos nos últimos trimestres, elevando o custo do risco sequencialmente. Isso, na visão da instituição, sugere uma maior probabilidade de inadimplência futura.
Dados complementares reforçam essa preocupação. O endividamento das famílias atingiu um recorde histórico em julho, chegando a 82% de sua renda. Paralelamente, o número de empresas em recuperação judicial disparou 65,8% entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período deste ano. No varejo, o crescimento das recuperações judiciais foi de 20,4% em 12 meses.
Casos recentes como o pedido de recuperação judicial de Casas Bahia e Marabraz, com dívidas somadas acima de R$ 18 bilhões, ilustram a fragilidade de alguns setores. A taxa de inadimplência de pessoas jurídicas, que era de 1,5% em 2020, agora se encontra em 4%.
Desempenho Variado Entre os Bancos: Quem se Destaca e Quem Enfrenta Dificuldades?
Apesar do cenário desafiador, Rafael Dadoorian ressalta que os quatro grandes bancos (Bradesco, Itaú, Santander e Banco do Brasil) continuam sólidos e bem geridos. A preocupação reside no ambiente de crédito futuro, com juros elevados, endividamento recorde e aumento das recuperações judiciais pressionando o setor.
O Bank of America reforça que a qualidade do crédito ao consumidor piorou, com os juros como principal vilão. Isso elevou o custo do risco na maioria dos bancos, que mantêm gestões cautelosas diante da inadimplência pressionada.
Em relação aos empréstimos inadimplentes (NPLs) ao consumidor, houve uma piora de 20 pontos-base em relação ao trimestre anterior, mesmo com o programa Desenrola. Bancos com carteiras mais concentradas registraram deteriorações mais acentuadas no custo do risco.
O Santander, por exemplo, apresentou o pior resultado em três anos, com queda de 17,6% no lucro gerencial. O Banco do Brasil, apesar de um lucro acima do esperado, viu a inadimplência do cartão de crédito disparar. Por outro lado, Itaú e Bradesco apresentaram um custo do risco relativamente estável, refletindo suas carteiras mais diversificadas.
Itaú Unibanco (ITUB4): A Força da Consistência em Meio à Volatilidade
O Itaú Unibanco continua sendo um destaque, apresentando lucros consistentes mesmo em um cenário de desaceleração econômica e juros altos. No segundo trimestre, o banco lucrou R$ 12,4 bilhões, com alta de 7,8%, impulsionado pelo crescimento de 10% na carteira de crédito, com foco em linhas de menor risco.
Analistas destacam a combinação de crescimento saudável, inadimplência controlada e forte geração de capital. A XP mantém o Itaú como top pick do setor, com potencial de valorização e bom dividend yield estimado.
Apesar de uma redução na previsão de crescimento de receitas com tarifas e seguros, e um tom de cautela do CEO em relação ao cenário macroeconômico, o Itaú demonstra resiliência. Sua inadimplência permanece próxima de metade da média da indústria, refletindo uma estratégia disciplinada de risco e foco em clientes resilientes.
A tese de investimento no Itaú se baseia cada vez mais na previsibilidade: lucros recorrentes, alta rentabilidade e distribuição de dividendos. Mesmo com a desaceleração do crescimento do lucro por ação e sinais de piora na qualidade dos ativos, a visão sobre o banco permanece favorável.
Bradesco (BBDC4): Recuperação em Curso com Atenção à Qualidade do Crédito
O Bradesco segue em sua trajetória de recuperação operacional, com lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões no segundo trimestre, alta de 16,2%. A estratégia de crescimento “step by step” prioriza a qualidade dos ativos, buscando melhorar a rentabilidade sem repetir problemas passados.
O CEO Marcelo Noronha reconhece o cenário econômico mais desafiador, mas argumenta que a carteira do Bradesco está mais protegida. O mercado vê oportunidade nas ações, que ainda estão descontadas em relação aos concorrentes, mas a deterioração dos indicadores de crédito pode limitar os ganhos.
Apesar dos riscos, o crescimento consistente do lucro e a melhora gradual dos resultados indicam um Bradesco diferente, mais focado em rentabilidade sustentável. A qualidade do crédito, no entanto, exige monitoramento constante.
Banco do Brasil (BBAS3): Desafios na Inadimplência e Perspectivas para o Futuro
O Banco do Brasil apresentou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no 2T26, com alta de 3,3% em um ano. No entanto, a inadimplência acima de 90 dias atingiu 5,61%, com deterioração acentuada em pessoas físicas e pequenas e médias empresas.
A inadimplência no agronegócio, principal foco de pressão, alcançou 6,27%, pesando sobre as provisões do banco. O BTG Pactual adota uma visão cautelosa, receando que a piora disseminada dificulte o cumprimento das metas e exija novas revisões do guidance.
A administração do BB busca demonstrar que o pior pode ter ficado para trás, com melhorias na concessão de crédito e gestão de carteira. Contudo, o resultado foi beneficiado por tesouraria e crescimento de crédito para pessoas físicas, enquanto os indicadores de risco permanecem pressionados.
Santander (SANB11): Um Trimestre Desafiador e a Busca por Recomposição de Rentabilidade
O Santander entregou o pior resultado em três anos, com lucro gerencial caindo 17,6% e o ROE recuando para 12,5%. A geração de receitas perdeu força e o custo do crédito está sob pressão do cenário macroeconômico mais difícil.
A administração foca em uma estratégia mais seletiva na concessão de crédito, reduzindo a exposição a segmentos de maior risco. Essa mudança pode preparar o banco para um ciclo de crédito adverso, mas pressiona a margem no curto prazo.
A operação de OPA com permuta de ações do Santander Espanha também gerou frustração em parte dos investidores, devido ao prêmio considerado magro e à falta de liquidez para quem não aderir.
Conclusão Estratégica: Navegando em Águas Turbulentas no Setor Bancário
O cenário atual para os grandes bancos brasileiros é complexo, marcado por lucros crescentes, mas também por um aumento significativo nas reservas para cobrir potenciais calotes. A piora na qualidade do crédito, impulsionada por juros elevados e endividamento das famílias e empresas, é o principal ponto de atenção.
Para os investidores, a análise individual de cada banco se torna crucial. Enquanto Itaú e Bradesco demonstram maior resiliência e estratégias mais robustas para enfrentar o cenário, Banco do Brasil e Santander enfrentam desafios mais acentuados na gestão da inadimplência e na recomposição da rentabilidade.
Os riscos incluem uma desaceleração econômica mais acentuada, que poderia elevar ainda mais os NPLs e pressionar as margens. As oportunidades residem na capacidade dos bancos mais bem preparados de continuar gerando valor através de eficiência operacional e distribuição de dividendos.
A tendência futura aponta para um ambiente de crédito adverso nos próximos trimestres. Minha leitura é que os bancos com carteiras mais diversificadas e foco em clientes de menor risco tendem a navegar melhor nesta fase, enquanto aqueles com maior exposição a segmentos mais vulneráveis precisarão de estratégias agressivas de reestruturação e gestão de risco.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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