Banco do Brasil Adapta Estratégia de Crédito Rural Pós-Crise de Inadimplência com Novas Garantias e Seletividade
Às vésperas do início dos vencimentos da safra 2025/26, o Banco do Brasil (BB) apresentou um panorama das transformações implementadas em sua carteira de crédito rural. O objetivo central é conter a inadimplência, um desafio que se intensificou nos últimos anos. Embora o cenário ainda não seja completamente otimista, os indicadores apontam para uma recuperação gradual e estratégica.
As medidas adotadas incluem um aumento na seletividade na concessão de crédito e um reforço significativo nas garantias exigidas. A utilização mais intensiva da alienação fiduciária, em detrimento de garantias mais vulneráveis a recuperações judiciais, busca reduzir a exposição do banco a riscos de perdas financeiras.
Felipe Prince, diretor de risco do Banco do Brasil, destacou durante uma apresentação a investidores que a expectativa é de que o índice de pontualidade da carteira de crédito para o agronegócio atinja 95% neste ano. Essa projeção sinaliza uma reversão da deterioração observada, quando o índice caiu de 99% em 2023 para 92% no ano passado, demonstrando a urgência e a necessidade dessas novas diretrizes.
A Nova Arquitetura de Garantias no Crédito Rural do BB
A estratégia do Banco do Brasil para mitigar a inadimplência no setor rural foi reconfigurada a partir de julho do ano passado. Diante das dificuldades enfrentadas pelos produtores, o banco passou a demandar um novo perfil de garantias para suas operações de crédito. A mudança representa um afastamento das práticas anteriores, que priorizavam o penhor e a hipoteca.
Esses tipos de garantias tradicionais, penhor e hipoteca, estão mais suscetíveis a serem incluídas em processos de recuperação judicial, o que prolonga e dificulta o recebimento de valores devidos. Para contornar essa vulnerabilidade, o BB intensificou o uso da alienação fiduciária. Este tipo de garantia confere ao crédito a natureza de extraconcursais, o que significa que não se submetem às regras das recuperações judiciais.
A eficácia dessa mudança é visível nos números: na safra 2025/26, 63% das operações de crédito já contam com alienação fiduciária, um salto expressivo em relação aos apenas 3% registrados na safra 2024/25. Paralelamente, houve um aumento substancial nas operações com garantia real de imóvel, que passaram de 31% na safra 2024/25 para 69% na safra 2025/26.
Alavancagem da Alienção Fiduciária e Garantia Real: Redução de Risco e Incentivo à Pontualidade
Gilson Bittencourt, vice-presidente de agronegócios do BB, ressaltou a importância da garantia real. Segundo ele, a perspectiva de ter um bem real como garantia traz um senso de responsabilidade para o tomador do crédito e reduz o risco moral. Isso ocorre porque, em caso de inadimplência, o produtor pode perder o bem que foi dado como garantia, um forte incentivo para o cumprimento das obrigações financeiras.
As primeiras evidências dessa nova abordagem já começam a ser observadas no atual ciclo de vencimentos de abril. O BB tem R$ 13,3 bilhões em operações com vencimento até o final deste mês. Desse montante, 80% referem-se a empréstimos concedidos sob as regras antigas, enquanto os 20% restantes já foram formalizados com as novas exigências de garantia.
Bittencourt explicou que essa discrepância reflete o comportamento habitual dos produtores em firmar operações de crédito nos meses de abril, maio e junho. Contudo, ele destacou que, nos primeiros 15 dias de abril, a carteira estruturada com alienação fiduciária já demonstra um resultado mais expressivo em termos de adimplência, confirmando a efetividade da nova política.
Diversificação de Culturas e Redução do Financiamento em Soja e Milho
Outra frente de adaptação estratégica do Banco do Brasil envolve a diversificação das culturas financiadas. Em 2025, 57% das operações de crédito estavam concentradas nas cadeias produtivas de soja e milho. Para 2026, essa concentração foi reduzida para 34%, indicando um esforço para diluir riscos e ampliar o alcance do crédito a outras culturas agrícolas.
No total, o banco projeta um montante de R$ 155,6 bilhões a serem recebidos em sua carteira de agronegócio em 2026. Deste valor, R$ 87,8 bilhões são destinados a linhas de custeio de safra, o que representa uma redução de 21% em comparação aos R$ 111,6 bilhões registrados no ano anterior. Essa diminuição pode refletir tanto uma política mais seletiva quanto uma readequação do mercado.
No mercado financeiro, as ações do Banco do Brasil apresentaram queda de 1,4%, acompanhando o movimento de baixa do Ibovespa, que recuou 1,5%. A instituição financeira está avaliada em R$ 133 bilhões.
Conclusão Estratégica Financeira: O Futuro da Carteira Rural do BB
A reestruturação da carteira rural do Banco do Brasil, impulsionada pelo choque de inadimplência, sinaliza um movimento prudente e necessário para a sustentabilidade do crédito no agronegócio. A maior exigência de garantias, especialmente a alienação fiduciária e a garantia real de imóvel, tende a reduzir a exposição do banco a riscos de perdas em processos judiciais, impactando positivamente suas margens de provisão para devedores duvidosos.
A seletividade na concessão de crédito e a diversificação de culturas financiadas também são estratégias que visam a diluição de riscos e a busca por operações mais resilientes. A projeção de aumento na pontualidade para 95% neste ano é um indicativo de que as novas políticas podem estar surtindo efeito, o que, a médio prazo, pode melhorar a qualidade da carteira e a rentabilidade do segmento.
Para investidores e gestores do setor, a mudança de postura do BB representa tanto riscos quanto oportunidades. O risco reside na possibilidade de o novo modelo restringir o acesso ao crédito para produtores com menor capacidade de oferecer garantias robustas, o que poderia impactar o crescimento do próprio setor. Por outro lado, a maior segurança nas operações pode atrair capital e fortalecer a confiança no mercado de crédito rural.
A tendência futura aponta para um cenário onde a solidez das garantias e a análise de risco mais aprofundada se tornarão ainda mais cruciais. O BB, ao liderar essa transição, busca consolidar sua posição como um player seguro e confiável, ajustando-se às novas realidades econômicas e regulatórias do agronegócio brasileiro.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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