Guerra no Oriente Médio e a Crise Energética Brasileira: Um Alerta Urgente para a Segurança de Abastecimento e o Futuro do Petróleo
A escalada de tensões no Oriente Médio, com o fechamento do Estreito de Ormuz e o novo choque do petróleo, lança um holofote crítico sobre a segurança energética do Brasil. A interrupção de projetos de ampliação do refino, somada aos efeitos da Operação Lava Jato e à pressão de multinacionais, deixou o país em posição de vulnerabilidade diante de crises globais.
Essa é a análise de José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, que em seu novo livro “Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro”, aborda as perspectivas do hidrogênio na transição energética. Em entrevista exclusiva, Gabrielli detalha como a geopolítica do petróleo, com intervenções dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã, está redesenhando o comércio mundial, mas o Brasil pode não estar preparado para aproveitar as oportunidades.
A dependência de importações, especialmente de diesel, e a capacidade de refino limitada colocam o Brasil em xeque. A instabilidade atual pode não apenas afetar o abastecimento interno, mas também influenciar o ritmo e a viabilidade da tão necessária transição para fontes de energia mais limpas e sustentáveis, num cenário de incertezas crescentes.
A entrevista foi concedida à Agência Brasil.
O Impacto Geopolítico da Guerra no Mercado de Petróleo e Gás
José Sergio Gabrielli compara a atual crise a choques históricos de 1973 e 1979, classificando o momento como um “terceiro grande choque do petróleo” com efeitos estruturais. Segundo ele, a instabilidade afetará não apenas a comercialização de petróleo, mas principalmente o mercado de gás, devido aos ataques às fontes produtoras globais.
No mercado de petróleo, os impactos iniciais podem ser mais suaves, mas com consequências de longo prazo. Gabrielli destaca que o Oriente Médio concentra as principais novas refinarias do mundo, como na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã, com destino principal para China e Índia. A política agressiva dos Estados Unidos, com intervenções na Venezuela e no Irã, visa o controle desse mercado. A Venezuela, com um tipo de petróleo complementar às refinarias norte-americanas, e o Irã, com um mercado paralelo devido às sanções, são peças-chave nesse tabuleiro.
Com a guerra, a exportação iraniana será alterada. O controle do Estreito de Ormuz pelo Irã, com exigência de pagamento em yuans, revela uma dimensão adicional da crise: a utilização do dólar como unidade de negociação. Gabrielli prevê uma mudança no mercado de petróleo, tanto em relação ao dólar quanto à redução do peso do Oriente Médio.
Brasil e a Nova Geografia do Petróleo: Oportunidades e Riscos
A estratégia americana de intervir no mercado de petróleo, segundo Gabrielli, busca tomar o mercado paralelo criado pelo Irã. Paralelamente, ele aponta para outros três grandes produtores emergentes: Canadá, Guiana e Brasil. A expectativa é que esses países adicionem 1,2 milhão de barris diários ao mercado até 2027, independentemente da guerra.
A instabilidade global, no entanto, acelera a modificação do suprimento para China e Índia, que possuem capacidade de refino, mas necessitam de petróleo. O petróleo brasileiro é o mais adequado para as maiores refinarias chinesas, enquanto o canadense serve às menores. Isso, na visão de Gabrielli, fortalecerá a relação entre Brasil, Canadá e China, aumentando a presença brasileira no mercado chinês, onde já é o terceiro maior exportador.
Apesar do potencial, o Brasil enfrenta um grave problema de segurança energética. A falta de capacidade de refino para atender à demanda interna, especialmente de diesel (entre 20% e 30% do mercado brasileiro), torna o país dependente de importações e exposto a turbulências internacionais.
A Necessidade Urgente de Ampliar o Refino no Brasil
Para aumentar a segurança energética, Gabrielli defende a expansão da capacidade de refino. Ele relembra que, a partir da Operação Lava Jato, a Petrobras inibiu a construção de novas refinarias, planejando cinco e construindo apenas uma. Entre 1980 e 2014, nenhuma nova refinaria foi inaugurada no país.
A oposição histórica à expansão do refino no Brasil, que remonta a 1911 com a presença de multinacionais como Exxon e Shell, sempre visou o controle da distribuição. A crise atual evidencia a importância estratégica do refino, mas a construção de uma nova refinaria leva cerca de cinco anos, inviabilizando soluções de curto prazo que, segundo Gabrielli, têm se concentrado em mecanismos de preço.
Ele critica o papel das importadoras de combustíveis, autorizadas em massa a partir do governo Temer. Gabrielli observa que, com a redução da carga de refino da Petrobras nos governos Temer e Bolsonaro, abriu-se espaço para importadores que, em sua leitura, atuam de forma especulativa, importando apenas quando o preço internacional é inferior ao nacional, o que exige um aumento do preço doméstico.
Transição Energética e o Futuro do Hidrogênio Verde
O novo choque do petróleo, na avaliação de Gabrielli, terá um efeito paradoxal na transição energética. Embora a dependência de combustíveis fósseis seja inegável no momento atual – ele cita Cuba como exemplo de país em dificuldades por falta de acesso ao petróleo –, o aumento dos preços impulsionará a busca por alternativas no médio e longo prazo.
Ele descarta a ideia de fechar imediatamente refinarias e a produção de petróleo, considerando-a uma “loucura”. O aumento de preços levará a uma contração de demanda, mas a longo prazo, a transição energética será acelerada. “Dessa vez, a transição energética vai aumentar no longo prazo por conta desse novo choque”, afirma.
Sobre o hidrogênio verde, Gabrielli o vê como uma saída promissora, mas que exige a criação de um novo mercado. Os atuais grandes consumidores são refinarias e empresas de fertilizantes. Para viabilizar a descarbonização da indústria, siderurgia, cimento, transporte pesado e aviação, a produção de hidrogênio verde precisa estar próxima ao consumo.
A produção de metanol a partir do hidrogênio, que pode gerar gasolina, diesel e querosene de aviação sem petróleo, é uma das aplicações. Gabrielli acredita que, com políticas de demanda adequadas, a substituição do petróleo por hidrogênio verde pode se tornar viável. Analistas preveem que o hidrogênio verde dominará o mercado de combustíveis por volta de 2035, mas as decisões para alcançar essa meta precisam ser tomadas agora.
Conclusão Estratégica Financeira: Navegando a Crise Energética e a Transição
A atual conjuntura de instabilidade no Oriente Médio e o consequente choque no preço do petróleo expõem a fragilidade energética do Brasil, impactando diretamente os custos operacionais de diversas indústrias e a inflação. A dependência de importações de diesel e a capacidade de refino limitada representam riscos significativos, podendo gerar volatilidade nos preços dos combustíveis e afetar a margem de lucro de empresas dependentes de logística.
Por outro lado, a crise pode criar oportunidades para investimentos em energias alternativas e em projetos de ampliação da capacidade de refino nacional, caso haja um direcionamento estratégico e políticas de incentivo. A reconfiguração do mercado global de petróleo, com maior participação de países como Brasil, Canadá e Guiana, pode beneficiar exportadores brasileiros, mas exige adaptação da produção e da logística para atender às demandas de mercados como China e Índia.
Para investidores e gestores, a leitura do cenário sugere cautela com ativos ligados a combustíveis fósseis de curto prazo, mas atenção redobrada a empresas que atuam na transição energética, como as de hidrogênio verde, biocombustíveis e tecnologias de eficiência energética. A tendência futura aponta para um mercado de combustíveis mais diversificado, com o hidrogênio verde ganhando espaço significativo na próxima década, exigindo planejamento e adaptação ágil para não perder competitividade.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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