Fábio Kanczuk, ex-diretor de Política Econômica do BC, antecipa desvalorização do dólar frente ao real até o final do ano eleitoral, citando juros e conflito no Oriente Médio como motores.
Em anos de preços baixos de commodities, o dólar frequentemente serve como um salvador para exportadores. No entanto, este ano, o cenário cambial se mostra menos favorável para os brasileiros, segundo Fábio Kanczuk, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central e diretor de Macroeconomia do ASA, instituição financeira de Alberto Safra. O dólar, que já recuou cerca de 12% contra o real desde janeiro, deve continuar sua trajetória de enfraquecimento até o fim de 2024, de acordo com as projeções do economista.
Kanczuk, que participou recentemente de palestras na Agrishow em Ribeirão Preto (SP) discutindo o impacto do ciclo político e fiscal no crédito para o agronegócio, compartilhou suas expectativas sobre o comportamento da moeda em entrevista ao The AgriBiz. A análise do câmbio é crucial para a rentabilidade do produtor rural, e o economista se mostrou confiante em suas previsões para o período eleitoral.
“Pergunta de câmbio, em geral, eu fujo, mas acho que a gente está numa das raras fases em que dá para falar disso com alguma segurança”, brincou Kanczuk, ressaltando a importância de entender a direção da moeda, mais do que um número exato. Sua orientação para quem precisa tomar crédito é clara: o momento é mais propício para estar endividado em dólar do que em real, dada a perspectiva de desvalorização da moeda americana.
A Dança dos Juros e o Fluxo de Investimentos Estrangeiros
A justificativa para essa visão reside na expressiva diferença entre as taxas de juros. Enquanto o Brasil mantém a taxa básica em 14,5%, os Estados Unidos operam com 3,75%. Essa disparidade torna o real mais atraente para investidores em busca de rendimentos. Kanczuk explica que o receio de estar comprado em real surge apenas se houver a expectativa de uma depreciação superior a 10%, algo que ele considera improvável até as eleições.
A proximidade das eleições presidenciais tende a atrair mais fluxo de investimento estrangeiro para o Brasil. A percepção do investidor internacional é de que uma crise no país é improvável até o encerramento do processo eleitoral. Esse aumento no fluxo de capital tende a conter uma disparada do dólar em relação ao real, favorecendo a valorização da moeda local.
“Essa eleição está com cara de que vai ser decidida no último instante. Tudo indica 50% de chance para um lado e para o outro até o segundo turno, então vai ficar esse jogo de comprado em real e vendido em dólar até chegar lá. Até novembro, vamos ficar nisso aí”, prevê Kanczuk, sinalizando um período de volatilidade controlada no câmbio.
O Impacto da Guerra no Oriente Médio e a Busca por Segurança
O conflito no Oriente Médio surge como um segundo fator crucial a favor do real. A instabilidade na região leva investidores a buscar refúgio em mercados emergentes considerados mais seguros, como a América Latina. Países exportadores de petróleo, como o Brasil e a Colômbia, tornam-se alvos atraentes, especialmente quando combinados com altas taxas de juros, um diferencial que o Brasil oferece.
“Então juntou guerra e o fato de que até a eleição, não tem crise, o raciocínio do investidor estrangeiro é ‘vou ganhar juros no Brasil’. É isso que a gente está vivendo. Por isso o dólar foi de R$ 5,50 para R$ 5. O americano, o gringo, vai colocar dinheiro no Brasil e continua com tudo. Claro, vai chacoalhar, sobe e cai, mas o caminho é de um dólar cada vez mais fraco, continuar caindo”, detalha Kanczuk.
Essa análise reforça a ideia de que investir em moeda local, aproveitando a taxa de juros brasileira, é mais vantajoso. Para aqueles com dívidas, o momento sugere que é mais prudente manter o endividamento em dólar, antecipando uma possível queda futura da moeda americana.
O Limite da Queda: Quando o Dólar Começa a Preocupar?
A trajetória de desvalorização do dólar só se tornaria um ponto de atenção para Kanczuk se a moeda americana cair abaixo de R$ 4,50. Esse patamar é considerado o limite crítico no cenário atual, onde a combinação de forte fluxo de investidores estrangeiros e o valuation da moeda (o nível considerado justo de dólar versus real no longo prazo) poderia se tornar desfavorável.
Qualquer cotação abaixo desse nível exigiria uma revisão da tese de investimento. Kanczuk ressalta que, no momento, o fluxo de capital está favorável e o valuation ainda é atrativo. Contudo, um dólar abaixo de R$ 4,50 indicaria que a moeda estaria se tornando artificialmente barata, perdendo seu espaço para futuras desvalorizações.
“No momento atual, o fluxo está a favor e o valuation ainda está bom. Se ficar menos de R$ 4,50, o valuation para de ser bom. O dólar ainda está caro, tem espaço para ficar mais barato”, conclui o economista, reforçando a perspectiva de um real mais forte no curto e médio prazo.
Conclusão Estratégica: Navegando a Valorização do Real
A perspectiva de um dólar em queda até o final do ano eleitoral apresenta impactos econômicos diretos e indiretos significativos. Para exportadores, uma moeda americana mais fraca pode reduzir a competitividade e as margens de lucro, exigindo estratégias de precificação e hedge mais robustas. Por outro lado, importadores se beneficiam de custos menores, o que pode reduzir a inflação de bens importados e aliviar a pressão sobre os custos de produção em diversos setores.
Para investidores, a valorização do real abre oportunidades de ganhos cambiais e torna ativos brasileiros mais atrativos, especialmente aqueles atrelados a juros altos. A oportunidade reside em alocar capital em instrumentos que se beneficiem da força da moeda local, como títulos de renda fixa e ações de empresas com receitas dolarizadas ou forte atuação no mercado interno. O risco, contudo, é apostar em uma queda excessiva do dólar, que poderia desestimular investimentos estrangeiros no longo prazo e afetar a balança comercial.
Empresários e gestores financeiros devem considerar a gestão de passivos e ativos em moeda estrangeira. Manter dívidas em dólar pode se tornar mais barato, enquanto a rentabilidade de investimentos em reais se torna mais atrativa. A valuation da moeda é um fator chave; enquanto o dólar estiver acima de R$ 4,50, a tese de um real mais forte se sustenta, mas qualquer movimento abaixo desse patamar demanda cautela e uma reavaliação do cenário.
A tendência futura, segundo Kanczuk, aponta para um dólar com viés de queda até novembro, impulsionado por fatores macroeconômicos e geopolíticos. O cenário provável é de um real mais forte, com flutuações pontuais, mas com a direção geral definida. A atenção ao patamar de R$ 4,50 será crucial para determinar a sustentabilidade dessa tendência e ajustar as estratégias financeiras conforme necessário.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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