E32: O Impacto Limitado do Aumento da Mistura de Etanol na Gasolina Frente à Saturação do Mercado
O aguardado aumento da mistura de etanol anidro na gasolina, passando de 30% para 32% (conhecido como E32), promete impulsionar a demanda pelo biocombustível. No entanto, analistas do Bradesco BBI alertam que essa medida, por si só, terá um impacto restrito na resolução da sobreoferta projetada para o mercado. A safra 2026/27 se anuncia com um volume de produção expressivo, o que pode manter a paridade de preços nas bombas sob pressão ao longo deste ano.
As projeções do Bradesco BBI, lideradas por Henrique Brustolin, indicam que o E32 adicionará aproximadamente 1,1 bilhão de litros à demanda anual de etanol, um número alinhado às estimativas da Unica. Apesar de ser um incremento significativo, a demanda total projetada de 15,6 bilhões de litros anuais pode não ser suficiente para absorver o avanço da produção.
A aprovação do E32 pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) está prevista para ocorrer em caráter temporário, com um prazo inicial de 180 dias, prorrogáveis por igual período. Isso significa que a demanda adicional imediata será de cerca de 540 milhões de litros nos primeiros seis meses, um volume consideravelmente menor do que o aumento previsto na produção.
Produção em Alta: Etanol de Milho e Cana-de-Açúcar Impulsionam Oferta
O cenário de sobreoferta é alimentado por diversos fatores. A produção de etanol a partir do milho, por exemplo, deve registrar um salto de 2 bilhões de litros em 2026, elevando o volume de 10 para 12 bilhões de litros. Essa expansão é um dos principais motores do aumento na oferta.
Paralelamente, as usinas de cana-de-açúcar também sinalizam um incremento na produção. A moagem de cana no Centro-Sul do Brasil tem previsão de crescimento de 5% nesta safra, totalizando 640 milhões de toneladas. Esse aumento na matéria-prima deve resultar em aproximadamente 1,2 bilhão de litros adicionais de etanol no mercado.
Adicionalmente, as usinas sucroalcooleiras tendem a priorizar a produção de etanol em detrimento do açúcar. Com os preços do biocombustível apresentando um prêmio de 2% sobre o açúcar, a projeção é que o mix direcionado ao adoçante caia de 50,3% em 2025/26 para 47,5% nesta safra. Essa mudança de foco pode adicionar outros 4,6 bilhões de litros de etanol à produção total.
Desafio na Absorção: Demanda Precisa Crescer em Ritmo Acelerado
Para que toda essa oferta adicional seja absorvida, o consumo de etanol hidratado, o tipo que abastece diretamente os veículos, precisaria atingir a marca de 39,6 bilhões de litros. Isso representaria um aumento expressivo de 4,3 bilhões de litros em relação ao ano anterior e garantiria uma participação recorde de 43,1% do etanol no consumo total de combustíveis do ciclo Otto.
Caso essa meta de consumo seja alcançada, a demanda por gasolina tipo A (a base antes da mistura com etanol anidro) seria reduzida em 2 bilhões de litros. Esse volume é comparável à média de importação brasileira de gasolina nos últimos cinco anos, sugerindo que o E32 tem o potencial de conduzir o país à autossuficiência em combustíveis para motores a combustão.
No entanto, a preocupação reside na capacidade do mercado de absorver esse volume adicional. A análise do Bradesco BBI sugere que, sem uma resposta mais robusta da demanda em linha com o crescimento da produção, a sobreoferta continuará a pressionar os preços.
Preço Baixo como Ferramenta: A Paridade de 70% Sob a Lupa
Apesar do E32 ser um passo importante, os analistas enfatizam que o consumo de etanol hidratado precisa crescer de forma consistente para equilibrar a balança de oferta e demanda. Para que isso ocorra, o preço do etanol nas bombas deve permanecer significativamente abaixo da paridade de 70% em relação à gasolina, ponto em que a escolha pelo biocombustível se torna mais atrativa para o consumidor.
Atualmente, essa paridade já se encontra em 64%, segundo o Bradesco BBI. Se essa tendência se mantiver ao longo da safra, teremos o menor patamar desde 2018/19. Contudo, com a oferta em contínuo crescimento e a demanda ainda sem responder plenamente aos preços mais baixos, a expectativa é que a paridade possa se deteriorar ainda mais antes de apresentar sinais de melhora.
Isso implica que, mesmo com o aumento no consumo, a rentabilidade das usinas sucroalcooleiras pode não apresentar uma melhora substancial, em virtude da necessidade de manter os preços em níveis baixos para estimular a demanda. Esse cenário reforça a perspectiva de margens pressionadas para o setor.
Conclusão Estratégica Financeira: Cautela para o Setor Sucroalcooleiro
Os impactos econômicos diretos do E32 se manifestam na tentativa de gerenciar a sobreoferta de etanol. A médio prazo, o aumento da mistura pode trazer maior previsibilidade ao mercado de combustíveis, reduzindo a dependência de importações de gasolina. No entanto, os efeitos indiretos, como a pressão sobre os preços do etanol, impactam diretamente a rentabilidade das usinas.
Os riscos financeiros residem na possibilidade de a demanda não acompanhar a oferta, forçando uma queda ainda maior nos preços e reduzindo as margens de lucro. As oportunidades podem surgir para empresas que conseguirem otimizar seus custos de produção e diversificar suas fontes de receita, possivelmente explorando outros derivados da cana ou do milho.
Para investidores e gestores do setor sucroalcooleiro, a visão é de um cenário desafiador para a safra 2026/27. Mesmo com a melhora na produtividade agrícola e a diluição de custos fixos, a pressão sobre os preços e a rentabilidade deve prevalecer no curto prazo. Isso sugere uma postura cautelosa em relação às ações de empresas como São Martinho e Jalles Machado, conforme indicam os analistas.
A tendência futura aponta para a necessidade de um consumo de etanol ainda mais expressivo ou de novas políticas que incentivem a demanda para que o setor possa, de fato, equilibrar a oferta crescente. A autossuficiência em combustíveis do ciclo Otto é um objetivo alcançável, mas a sustentabilidade econômica do processo ainda depende de uma dinâmica de preços favorável.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
O que você pensa sobre o futuro do etanol no Brasil? Deixe sua opinião, dúvida ou crítica nos comentários. Sua participação é muito importante!





