Indústria de Fertilizantes em Alerta: Conflitos Geopolíticos Ameaçam Fornecimento de Fosfatados Essenciais para a Agricultura
A indústria de fertilizantes está em alerta máximo com a possibilidade real de desabastecimento de fertilizantes fosfatados para a próxima safra. A escalada da guerra no Irã e as tensões geopolíticas associadas têm gerado preocupações significativas sobre a disponibilidade de matérias-primas cruciais, como o enxofre e o ácido sulfúrico, com potenciais reflexos diretos na produtividade agrícola brasileira e global.
Executivos do setor, reunidos em um debate promovido pela Argus Media, reforçaram diagnósticos recentes que apontam para um cenário de oferta restrita. A dependência de regiões instáveis para o fornecimento de enxofre, um subproduto do refino de petróleo e gás, coloca a cadeia produtiva de fertilizantes em uma posição vulnerável diante de conflitos e instabilidades regionais.
A situação exige atenção tanto de produtores quanto de consumidores. A interrupção no fluxo de matérias-primas pode não apenas elevar os custos de produção, mas também comprometer a capacidade de adubação das lavouras, impactando diretamente os rendimentos e a segurança alimentar em escala mundial. Minha leitura do cenário é que a volatilidade atual exige uma análise aprofundada das cadeias de suprimentos e uma busca por alternativas que mitiguem riscos futuros.
A Complexa Cadeia de Suprimentos de Enxofre e Ácido Sulfúrico Sob Ameaça
Felipe Coutas de Souza, country manager da Itafos Fertilizantes, destacou que os anos de 2024 e 2025 já apresentaram déficits no balanço global de enxofre, com uma projeção de aprofundamento para 2026. Ele explicou que os conflitos no Oriente Médio têm acentuado a redução na oferta global de enxofre, matéria-prima indispensável na produção de ácido sulfúrico, componente essencial na fabricação de fertilizantes fosfatados.
Jasmine Antunes, repórter sênior de enxofre e ácido sulfúrico da Argus, corroborou a análise, apontando que apenas três navios com enxofre conseguiram atravessar o Estreito de Ormuz recentemente, além de relatos de refinarias atacadas. Essa situação gera incertezas não apenas sobre a passagem segura de suprimentos, mas também sobre a produção de enxofre a longo prazo.
Nayara Piloto, gerente sênior de Vendas B2B da EuroChem, estima uma queda de até 15% na oferta de fosfatados neste ano. Ela ressaltou que, de 40 milhões de toneladas de enxofre enviadas para transporte marítimo anualmente, entre 19 e 22 milhões provêm do Oriente Médio. Embora ainda não haja um risco iminente de desabastecimento total, a duração da guerra é um fator determinante, e uma paralisação temporária na oferta é considerada provável.
O Brasil e a Dependência do Oriente Médio para Matérias-Primas Agrícolas
O Oriente Médio foi a origem de 42% das 2,3 milhões de toneladas de enxofre que o Brasil importou em 2025, segundo dados de Antunes. Essa dependência coloca o país em uma posição de vulnerabilidade, podendo enfrentar uma falta temporária do produto. Souza descreveu o cenário para o Brasil como um “mergulho de apneia”, onde a meta é “tentar sair ileso em 2027” diante da falta de soluções imediatas.
O cenário é agravado pelo fato de o enxofre ser um subproduto do refino de petróleo e gás, o que o torna suscetível às flutuações na oferta dessas commodities. Piloto mencionou que a restrição na oferta já impacta operações, com algumas plantas paralisando a produção por falta de enxofre ou devido ao alto custo de produção do fertilizante, demandando soluções emergenciais e apoio governamental.
A Mosaic, por exemplo, paralisou a produção de superfosfato simples (SSP) em suas unidades em resposta à disparada nos preços do enxofre, que já sofria com disrupções no fornecimento devido à queda nas exportações da China e da Rússia, mesmo antes do início da guerra no Irã.
Fatores Geopolíticos e Demanda Crescente Moldam o Mercado de Fertilizantes
Três movimentos comerciais e geopolíticos foram destacados pelos especialistas como contribuintes para o déficit de matérias-primas para fertilizantes fosfatados. O primeiro é a entrada da Indonésia como compradora de ácido sulfúrico, não para a agricultura, mas para a indústria de metais, especialmente na produção de níquel. A Indonésia saltou de 3 milhões de toneladas em 2024 para mais de 5 milhões em 2025, impactando os preços globais devido à sua demanda não sazonal.
A China, por sua vez, apresenta um papel duplo como importadora e produtora de enxofre. Apesar de possuir refinarias que produzem o insumo, o país ainda precisa importar quase 9 milhões de toneladas em 2025, influenciando os movimentos globais. As regulamentações locais visam assegurar o fornecimento interno, o que pode restringir as exportações, como a redução de 50% nas vendas de ácido sulfúrico pelos produtores chineses entre janeiro e abril deste ano.
O terceiro fator relevante é a suspensão temporária das exportações de enxofre pela Rússia, após ataques de drones a refinarias durante a guerra da Ucrânia. Mais de 1 milhão de toneladas que eram jogadas no mercado em 2024 agora farão falta, segundo a especialista da Argus. No caso do ácido sulfúrico, o Brasil pode ter que recorrer a produtores europeus como Turquia, Espanha e Itália, com custos mais elevados.
Conclusão Estratégica Financeira: Navegando na Volatilidade e Buscando Eficiência
O cenário atual apresenta desafios significativos para a indústria de fertilizantes, com potencial impacto direto nos custos de produção agrícola e, consequentemente, na rentabilidade do agronegócio. A escassez de matérias-primas como o enxofre e o ácido sulfúrico eleva os custos variáveis, pressionando as margens dos produtores de fertilizantes e, em cascata, dos agricultores. A busca por fornecedores alternativos ou o desenvolvimento de produtos com menor dependência dessas matérias-primas tornam-se estratégias cruciais para mitigar riscos e manter a competitividade.
Para investidores e gestores, o cenário aponta para a necessidade de diversificação de portfólio e uma análise criteriosa das empresas expostas a essas cadeias de suprimentos. A volatilidade nos preços das commodities e a incerteza geopolítica podem gerar oportunidades em empresas com forte gestão de riscos e capacidade de adaptação, mas também representam riscos para aquelas com dependência de fornecedores únicos ou com pouca flexibilidade em seus processos produtivos.
Minha leitura é que a tendência futura aponta para uma maior busca por autossuficiência em matérias-primas essenciais e o desenvolvimento de tecnologias mais eficientes e sustentáveis. O governo brasileiro, segundo os executivos, deveria considerar incentivos específicos para a cadeia de fertilizantes, comparáveis aos investimentos realizados por países como os Estados Unidos, para fortalecer a segurança no abastecimento e a competitividade do setor agrícola nacional.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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