Economista Alerta: Próximo Governo Enfrentará Contas Públicas Desafiadoras, Com Pouco Espaço Orçamentário e Dívida Crescente
A campanha eleitoral para a presidência brasileira tem apresentado propostas distintas para a condução da economia, mas um ponto crucial permanece sem resposta clara: de onde virá o dinheiro necessário para estabilizar a dívida pública e, consequentemente, abrir espaço para a queda dos juros. Essa incerteza é um dos principais focos de preocupação para os analistas do cenário econômico.
Segundo Josilmar Cordenonssi, professor de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o próximo presidente terá pela frente decisões mais complexas do que as explicitadas até o momento para o eleitorado. A avaliação é de que ambos os candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), oferecem visões que, em última instância, demandarão ajustes significativos, mas sem detalhar as fontes desses cortes ou otimizações.
O debate público, na visão do economista, deveria se aprofundar não apenas sobre a necessidade de um ajuste fiscal, mas principalmente sobre sua magnitude e composição. Isso engloba a discussão sobre a proporção que virá da redução de despesas primárias e quanto poderá ser obtido através da revisão de gastos tributários, como benefícios fiscais e regimes especiais de tributação. A ausência desse debate na campanha eleitoral é vista como um ponto crítico.
Orçamento Restrito: A Margem de Manobra Limitada do Futuro Governo
A dificuldade em encontrar espaço para manobras fiscais é acentuada pelo cenário orçamentário que o próximo governo herdará. A proposta orçamentária para 2027 já aponta para um comprometimento superior a 92% das despesas primárias, que somam R$ 2,6 trilhões, com gastos obrigatórios. Isso deixa uma margem discricionária estimada em R$ 222 bilhões, um valor que ainda inclui investimentos e emendas parlamentares.
Cordenonssi estima que a parcela do orçamento sobre a qual o governo terá efetiva liberdade de ação seja próxima de 5%. Essa pequena fatia, além de ser ínfima, ainda é a fonte de recursos para investimentos, essenciais para o desenvolvimento do país. A carência de fundos para projetos de infraestrutura, por exemplo, reforça a necessidade de parcerias com o setor privado.
A trajetória da dívida pública é outro fator de restrição significativo. Uma sinalização fiscal considerada crível pelo mercado tem o potencial de reduzir a percepção de risco do país, o que, por sua vez, poderia impactar positivamente as taxas de juros cobradas do governo. A questão central, contudo, reside em como alcançar essa credibilidade sem gerar custos econômicos e sociais elevados.
A Dificuldade do Ajuste: Entre o “Tesouraço” e o “Ajuste Sem Cortes Sociais”
A polarização do debate político muitas vezes se reflete nas propostas econômicas. Enquanto um lado pode sugerir um “tesouraço”, um corte generalizado de gastos sem especificar as áreas, o outro tende a propor um “ajuste fiscal sem cortar gastos sociais”. Ambas as abordagens, segundo Cordenonssi, escondem a complexidade do desafio fiscal que o próximo presidente terá de enfrentar.
O economista argumenta que um ajuste fiscal muito abrupto pode acarretar custos econômicos e sociais consideráveis, algo que o governo precisa evitar. A alternativa seria sinalizar um plano de controle de despesas e redução da dívida no médio e longo prazo. A grande questão é identificar quais áreas podem ser alvo de intervenção sem gerar forte resistência política ou impacto negativo na população.
As opções incluem a revisão de subsídios e benefícios tributários, despesas vinculadas por lei, a Previdência Social e a política de valorização do salário mínimo. Todas essas são áreas com impacto fiscal relevante, mas também com alto custo político, o que explica, em parte, por que esses temas são minimizados durante as campanhas eleitorais.
A “Conta Escondida”: Por Que o Debate Fiscal é Interditado na Campanha
O “custo político” associado a decisões fiscais impopulares é um dos motivos pelos quais as escolhas mais difíceis são raramente apresentadas de forma clara durante a campanha eleitoral. Cordenonssi descreve essa dinâmica como um “sincericídio”, onde a verdade sobre as medidas necessárias pode levar à perda de votos. Isso resulta em um debate público interditado, onde as ideias e os planos concretos para a gestão das contas públicas são deixados de lado.
O cenário que o vencedor encontrará será de uma economia com desemprego baixo e atividade em crescimento, mas também com juros elevados, dívida em trajetória ascendente e uma flexibilidade orçamentária extremamente limitada. A conclusão do economista é contundente: “O país está vivendo acima dos seus meios”.
Para Cordenonssi, é imperativo que o próximo governo apresente um caminho crível para a recuperação das contas públicas, mesmo que o ajuste não ocorra de forma imediata. A mensagem final é um alerta sobre a inevitabilidade de lidar com essa situação: “Uma hora essa conta vai chegar.” O programa Mapa de Risco, do InfoMoney, continuará a abordar esses temas em edições especiais ao vivo.
Conclusão Estratégica Financeira: Navegando a Incerteza Fiscal Pós-Eleição
Os impactos econômicos diretos e indiretos da forma como o próximo governo conduzirá o ajuste fiscal serão profundos. Uma política fiscal crível pode atrair investimentos, reduzir o custo do crédito e impulsionar o crescimento sustentável. Por outro lado, a inação ou a adoção de medidas ineficazes podem levar a um aumento da desconfiança, juros mais altos e dificuldades crescentes para o financiamento público e privado.
Os riscos financeiros residem na possibilidade de uma deterioração contínua da dívida pública, com a consequente elevação do risco-país e o aumento da volatilidade nos mercados. As oportunidades, contudo, surgem com a possibilidade de implementar reformas estruturais que promovam a eficiência do gasto público, a melhoria do ambiente de negócios e a atração de capital estrangeiro.
Para investidores, empresários e gestores, a leitura do cenário exige cautela e planejamento. A capacidade de adaptação a um ambiente de juros elevados e de restrição orçamentária será crucial. A tendência futura aponta para um cenário onde a gestão fiscal será o principal fator determinante para a estabilidade econômica e o potencial de crescimento do Brasil nos próximos anos. O cenário provável, na minha leitura, é de um ajuste gradual, mas inevitável, com pressões políticas constantes para mitigar seus efeitos.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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