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Mercado Financeiro

Argentina: A Montanha-Russa do “Efeito Serrucho” e as Ações que o Bradesco BBI Recomenda Vender

Por Vinícius Hoffmann Machado27 set 20268 min de leitura
Argentina: A Montanha-Russa do "Efeito Serrucho" e as Ações que o Bradesco BBI Recomenda Vender

Resumo

Argentina: Entre a Desvalorização e a Incerteza Econômica, O “Efeito Serrucho” Dita o Ritmo do Mercado de Ações

O mercado argentino tem apresentado um cenário complexo para investidores. Embora as ações do país tenham se tornado mais baratas após recentes correções, o Bradesco BBI aponta que faltam catalisadores convincentes para justificar um otimismo generalizado. A equipe de estratégia do banco mantém uma recomendação de ‘underweight’, equivalente a uma postura de venda, para as ações argentinas.

A análise do banco descreve a atual dinâmica econômica da Argentina como um ciclo de crédito em formato de “serrucho”, caracterizado por recuperações temporárias que são rapidamente seguidas por novas deteriorações. A principal questão em aberto é se a estabilização macroeconômica conseguirá, de fato, se traduzir em uma recuperação interna autossustentável, algo que os dados mais recentes ainda não confirmam de maneira robusta.

A cautela se estende a diversos setores, com destaque para os bancos, que enfrentam um aumento na inadimplência de famílias e uma queda nos índices de cobertura de provisões. Paralelamente, a forte demanda por dólar e um câmbio historicamente caro adicionam camadas de risco, mesmo com a relativa estabilidade da moeda local. A persistência desses fatores levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da trajetória cambial no longo prazo.

Acompanhe o que está movimentando o mercado financeiro:

Bradesco BBI

Ciclo de Crédito em “Serrucho” e Inadimplência Crescente

O crescimento real do crédito na Argentina retornou ao campo negativo em julho, após um breve avanço em junho. Essa fragilidade se reflete na baixa confiança do consumidor, que permanece deprimida, apesar de uma melhora gradual nos salários reais desde março. A recuperação do poder de compra ainda não se traduziu em uma expansão mais forte do crédito e do consumo, evidenciando a natureza volátil do ciclo econômico.

O cenário é particularmente delicado para o setor bancário. A inadimplência das famílias registrou um aumento de junho para julho, superando o dobro do nível observado no ano anterior. A taxa de empréstimos inadimplentes no sistema como um todo também atingiu patamares preocupantes. A deterioração está concentrada no crédito familiar, enquanto a qualidade do crédito corporativo se mantém comparativamente mais estável, mas a queda nos índices de cobertura de provisões deixa os bancos mais vulneráveis a futuras pioras.

Os analistas do Bradesco BBI identificam a ausência de ingredientes cruciais para uma reprecificação sustentável das ações bancárias. O crescimento do crédito segue fraco, a confiança do consumidor permanece baixa e a inadimplência segue em trajetória ascendente, pintando um quadro desafiador para o setor financeiro argentino no curto e médio prazo.

Dolarização Persistente e Câmbio Caros Pressionam a Economia

Outro fator de atenção é o comportamento do câmbio. Mesmo com uma relativa estabilidade do peso argentino, as famílias continuam adquirindo dólares em ritmo elevado. Em julho, a compra de dólares por pessoas físicas atingiu o maior volume mensal do ano, impulsionada parcialmente pelo turismo relacionado à Copa do Mundo. Contudo, a tendência mais ampla aponta para uma forte demanda por dolarização, persistindo mesmo com a eleição presidencial de 2027 ainda distante.

O Bradesco BBI considera o peso argentino historicamente caro, com o índice da taxa de câmbio efetiva real (REER) próximo de 86 pontos, significativamente abaixo da média histórica de 113. Essa discrepância sugere um potencial de desvalorização de cerca de 31% caso a moeda retorne aos seus padrões históricos. Essa percepção de câmbio sobrevalorizado alimenta a demanda por ativos em moeda estrangeira.

Embora a esperada aceleração das exportações agrícolas e o avanço na produção de petróleo de Vaca Muerta possam impulsionar a entrada de moeda estrangeira, a desaceleração recente na acumulação de reservas levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da trajetória cambial. A incerteza em torno do futuro do câmbio é um fator de peso para a avaliação de ativos e para a confiança dos investidores no mercado argentino.

O Cenário Político de Milei e a Dependência da Estabilização Macroeconômica

No campo político, o diagnóstico do Bradesco BBI é menos negativo. A tese de reeleição do presidente Javier Milei permanece de pé, embora com uma margem de erro reduzida. Indicadores de confiança no governo mostram uma estabilização após um período de fraqueza, e pesquisas recentes colocam Milei em posição competitiva para a eleição presidencial de 2027.

No entanto, a ausência de uma recuperação mais evidente na atividade econômica doméstica aumenta a dependência do governo na continuidade da estabilização macroeconômica para manter o apoio político. Sinais de impaciência social podem limitar o espaço para erros de política econômica e novas frustrações com o desempenho da atividade econômica, gerando um cenário de maior pressão sobre o governo.

A capacidade de Milei de manter a estabilidade econômica e promover uma recuperação tangível será crucial para consolidar seu capital político. Qualquer deslize na gestão econômica pode ter repercussões diretas no cenário eleitoral, adicionando uma camada de imprevisibilidade ao futuro político do país e, por consequência, ao mercado.

Valuation Atrativo, Mas Gatilhos de Crescimento Ausentes

A recente correção do mercado argentino trouxe uma notícia positiva para os investidores: as valuations tornaram-se mais atraentes. O índice MSCI Argentina negocia a 8,8 vezes o lucro projetado, abaixo de sua média histórica. O setor financeiro, em particular, apresenta múltiplos de lucro significativamente descontados em relação ao seu valor patrimonial, um indicativo de que o mercado pode estar precificando um cenário mais pessimista do que o fundamental.

Ainda assim, o Bradesco BBI vê pouca justificativa para uma reprecificação ampla dos ativos neste momento. A recuperação da atividade e da demanda por crédito continua adiada, enquanto a inadimplência cresce e os indicadores de confiança permanecem fracos. Esses fatores limitam o potencial de valorização das ações no curto prazo, mesmo com os múltiplos descontados.

Há também uma crescente cautela em relação aos setores de petróleo, gás e energia. Embora a tese estrutural de Vaca Muerta seja vista como positiva no longo prazo, os preços elevados do petróleo podem reduzir a probabilidade de novas rodadas de revisões positivas de lucros. Os setores de energia e utilities negociam próximos de suas médias de longo prazo, indicando que parte do potencial de crescimento já pode estar precificado.

Conclusão Estratégica Financeira: Onde Estão as Oportunidades?

O cenário argentino atual apresenta um dilema clássico para investidores: valuations atraentes em meio a riscos econômicos e políticos significativos. O “efeito serrucho” na economia, marcado por recuperações e deteriorações cíclicas, exige uma abordagem seletiva e de longo prazo. A manutenção da recomendação ‘underweight’ pelo Bradesco BBI sinaliza que os catalisadores para uma recuperação sustentável ainda não se materializaram plenamente.

Os riscos cambiais, o aumento da inadimplência e a fragilidade do crédito corporativo e familiar são fatores que demandam atenção redobrada. Para investidores, a chave reside em identificar empresas com balanços sólidos, modelos de negócio resilientes e capacidade de navegação em um ambiente macroeconômico volátil. Empresas com exposição a commodities exportáveis, como petróleo e gás de Vaca Muerta, podem oferecer oportunidades, mas é crucial ponderar o impacto dos preços globais e a capacidade de execução.

O Bradesco BBI sugere uma seleção criteriosa dentro do mercado argentino, destacando cinco nomes que oferecem uma combinação de valuation, qualidade de balanço e exposição à normalização da economia no longo prazo: Banco Macro, Vista, Pampa, TGS e IRSA. Para o investidor que busca exposição à economia doméstica, Banco Macro e IRSA são as escolhas, enquanto Vista, Pampa e TGS representam a aposta em Vaca Muerta e no crescimento das exportações argentinas. A tendência futura aponta para um mercado que continuará a ser influenciado por desenvolvimentos políticos e pela capacidade do governo em implementar reformas que promovam a estabilidade e o crescimento sustentado.

Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.

E você, o que pensa sobre o cenário argentino e as ações recomendadas pelo Bradesco BBI? Deixe sua opinião, dúvida ou crítica nos comentários!

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Vinícius Hoffmann Machado
Fundador · Eruption Global

Engenheiro de Produção e especialista em finanças corporativas com mais de 13 anos de experiência em gestão estratégica de custos, planejamento orçamentário e análise de mercado. Fundador da Eruption Global, portal dedicado à análise econômica aplicada.

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