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Mercado Financeiro

Ações de Dividendos: O Fator Mágico em Juros Altos ou Ilusão Financeira?

Por Vinícius Hoffmann Machado21 set 20268 min de leitura
Ações de Dividendos: O Fator Mágico em Juros Altos ou Ilusão Financeira?

Resumo

Ações que pagam dividendos em juros altos: um porto seguro ou uma estratégia falha? Entenda a análise da XP.

A ideia de que ações que distribuem altos dividendos são um refúgio seguro em tempos de juros elevados é amplamente difundida no mercado financeiro. A lógica sugere que essas empresas, por remunerarem seus acionistas com mais frequência, seriam menos voláteis e mais resilientes em um ambiente de custo de capital mais alto. No entanto, uma análise recente da XP Investimentos lança luz sobre essa crença, sugerindo que a realidade pode ser bem diferente.

A pesquisa da XP investigou o comportamento de uma carteira teórica composta pelas maiores pagadoras de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) em comparação com as empresas que menos distribuem. Os resultados indicam que, embora exista um prêmio a ser capturado, ele pode desaparecer quando confrontado com outras estratégias de investimento, desafiando a percepção comum sobre a eficácia dessa abordagem em cenários de juros altos.

Com o cenário de juros elevados persistindo, muitos investidores buscam alternativas que ofereçam retornos consistentes e proteção contra a volatilidade. A análise da XP, portanto, torna-se crucial para quem busca otimizar suas carteiras e tomar decisões mais embasadas, indo além dos clichês do mercado financeiro e explorando os dados concretos.

A análise foi conduzida pela XP Investimentos.

Desvendando o Prêmio dos Dividendos em Juros Altos

A XP ordenou as ações listadas na bolsa pelo valor distribuído em dividendos e JCP nos últimos 12 meses em relação ao preço do papel. A simulação comparou o desempenho dos 20% de maior pagamento com os 20% de menor pagamento. A carteira com as maiores pagadoras apresentou um rendimento anual de 13,4%, enquanto a das menores pagadoras registrou uma perda de 2,5% ao ano.

Contudo, a estratégia que combinava a compra das primeiras com a venda das segundas, batizada de fator Dividendos pela XP, rendeu 12,8% ao ano. É importante notar que esses resultados são simulados, utilizando carteiras teóricas com pesos iguais e rebalanceamento mensal, o que oferece uma visão controlada do comportamento dos ativos.

Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP, explica em relatório que o prêmio do fator Dividendos se amplia fortemente com a alta dos juros, mas não por uma recompensa direta do mercado às empresas que distribuem proventos. A vantagem, segundo ele, surge de outra dinâmica.

A Verdadeira Dinâmica por Trás do Desempenho das Ações de Dividendos

Durante períodos de juros altos, a carteira de maiores pagadoras de dividendos tende a ficar praticamente estável ou até mesmo cair. A vantagem aparente, conforme aponta o estudo da XP, reside no fato de que as ações das empresas que pagam pouco dividendos recuam com mais força nesse mesmo ambiente. Assim, a estratégia de “long-short” (comprar os que pagam mais e vender os que pagam menos) se beneficia dessa divergência de desempenho.

A XP ressalta que esse comportamento não é exclusivo dos dividendos e é observado na maioria das estratégias analisadas. O ganho em ciclos de alta de juros, em muitas delas, depende da queda mais acentuada das ações contra as quais a estratégia aposta, e não necessariamente de um mérito intrínseco da tese de investimento.

Essa observação desafia a intuição de que empresas que pagam dividendos são inerentemente mais fortes ou menos afetadas por choques de liquidez e custo de capital, como a alta da taxa de juros.

Correlações e a Família de Estratégias de Valor

A estratégia de dividendos, segundo a XP, mostra uma forte correlação com outras estratégias baseadas em fatores, como a de Valor e a de Baixo Risco. A correlação com a estratégia de Valor é de 0,70, e com a de Baixo Risco, de 0,67. Essa proximidade sugere que os dividendos compartilham características com outras abordagens focadas em empresas com fundamentos sólidos e preços atrativos.

Os estrategistas classificam os dividendos como parte da família Valor, com a particularidade de ser o único sinal que exige um pagamento efetivo em dinheiro aos acionistas. Isso significa que, embora compartilhem semelhanças com outras estratégias de valor, a distribuição de proventos é um ato concreto de retorno financeiro direto ao investidor, algo que não ocorre em recompras de ações, por exemplo.

“Nenhuma das três intuições com que começamos o relatório sai intacta”, admitem os estrategistas da XP, indicando que a pesquisa revelou nuances surpreendentes sobre a dinâmica dos dividendos no mercado.

A Exposição a Juros e a Diversificação Setorial

Contrariando outra crença comum, o estudo da XP indica que as maiores pagadoras de dividendos são, na verdade, ligeiramente mais expostas a juros do que uma carteira média de ações. Cerca de 80% da reação dessas ações às taxas de juros é explicada pelo movimento geral do Ibovespa, e não diretamente pela política de distribuição de proventos.

As empresas que pagam menos dividendos, por outro lado, mostram-se ainda mais sensíveis a todas as taxas de juros testadas pela XP. Isso reforça a ideia de que a sensibilidade à taxa de juros é um fator mais amplo do que apenas a política de distribuição de dividendos de uma empresa.

O estudo também desmistifica a ideia de que uma carteira de dividendos se concentra exclusivamente em setores defensivos e regulados, como utilidades públicas, que são frequentemente vistos como substitutos de títulos de renda fixa. Embora utilidades públicas representem a maior fatia individual (19%) nas carteiras de maiores pagadoras, o restante se distribui por diversos setores, incluindo tecnologia, mídia, telecomunicações, varejo, bancos e mineração, demonstrando uma carteira diversificada.

Recompras de Ações: Uma Alternativa em Ascensão?

A análise da XP não incluiu recompras de ações em seus cálculos, pois poucas empresas brasileiras realizam recompras em volume suficiente para alterar significativamente o ranking. No entanto, dados da CVM mostram que, de 573 programas de recompra anunciados desde 2016, apenas cerca de 30% resultaram em uma redução líquida superior a 1% das ações em circulação. Isso sugere uma diferença considerável entre o que é anunciado e o que é efetivamente executado.

A XP acredita que o tema das recompras ganhará mais espaço com a introdução do imposto de renda retido na fonte sobre dividendos, em vigor desde janeiro. Essa mudança tributária oferece um incentivo relevante para que as empresas considerem a troca de distribuições de dividendos por programas de recompra. Como as políticas de distribuição das empresas se ajustam com defasagem, os estrategistas ponderam que uma mudança significativa nesse comportamento pode ser observada apenas a partir de 2027.

Conclusão Estratégica: Dividendos em Juros Altos – O Que o Investidor Precisa Saber

O cenário de juros altos impõe desafios e oportunidades para os investidores em ações de dividendos. A análise da XP sugere que o prêmio dessas ações não é tão direto quanto se imagina, sendo influenciado pela performance relativa em comparação com empresas menos distribuidoras, e não apenas pela política de proventos em si. A correlação com estratégias de valor e baixo risco indica que os dividendos podem ser uma peça dentro de um portfólio diversificado, mas não uma solução isolada.

Para o investidor, a principal lição é a necessidade de aprofundar a análise para além do yield de dividendos. É crucial entender a saúde financeira da empresa, sua capacidade de gerar caixa de forma consistente e a sustentabilidade de seus pagamentos. A sensibilidade à taxa de juros das empresas pagadoras de dividendos, muitas vezes ligada ao desempenho geral do mercado, também deve ser considerada.

A perspectiva de aumento das recompras de ações, impulsionada por mudanças tributárias, pode alterar o cenário futuro. Empresas podem migrar parte de suas distribuições para recompras, o que impacta a forma como o retorno ao acionista é entregue. Investidores devem ficar atentos a essa transição, pois ela pode modificar a atratividade de determinadas ações e estratégias.

Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.

O que você achou dessa análise sobre ações de dividendos em juros altos? Compartilhe sua opinião e suas dúvidas nos comentários abaixo. Sua perspectiva é muito importante!

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Vinícius Hoffmann Machado
Fundador · Eruption Global

Engenheiro de Produção e especialista em finanças corporativas com mais de 13 anos de experiência em gestão estratégica de custos, planejamento orçamentário e análise de mercado. Fundador da Eruption Global, portal dedicado à análise econômica aplicada.

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