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Mercado Financeiro

Crise de Crédito no Brasil: Onde Estão as Oportunidades Quando Falta Dinheiro para Todos?

Por Vinícius Hoffmann Machado08 set 20268 min de leitura
Crise de Crédito no Brasil: Onde Estão as Oportunidades Quando Falta Dinheiro para Todos?

Resumo

Crise de Crédito no Brasil: Onde Estão as Oportunidades Quando Falta Dinheiro para Todos? Alexandre Cruz da JiveMauá Aponta Caminhos em Meio à Escassez de Liquidez

A taxa de juros elevada e persistente no Brasil tem gerado um cenário de escassez de crédito, impactando a saúde financeira de diversas empresas e elevando o número de pedidos de recuperação judicial. Essa conjuntura desafiadora, contudo, não significa ausência de oportunidades. Pelo contrário, para gestores experientes, a falta de liquidez pode abrir portas para investimentos estratégicos em negócios com potencial, mas que enfrentam dificuldades momentâneas.

Alexandre Cruz, CEO e fundador da JiveMauá, gestora de investimentos alternativos com vasta experiência, discute em entrevista como os fundos de Special Situations (special sits) e outras abordagens no mercado de crédito privado podem prosperar nesse ambiente. A análise de Cruz aponta para um mercado onde os canais tradicionais de financiamento, como bancos e mercado de capitais, já não conseguem suprir toda a demanda, criando um vácuo propício para novas estratégias.

A complexidade do cenário atual exige uma compreensão profunda dos mecanismos de mercado e uma capacidade aguçada de identificar valor em meio à volatilidade. A análise de Cruz oferece um panorama sobre como navegar essa maré de restrições financeiras, transformando desafios em oportunidades de retorno.

Fonte: InfoMoney

O Choque de Liquidez e a Pane Seca das Empresas

A combinação de subsídios pós-pandemia com juros altos por um período prolongado adiou os efeitos mais severos da crise de crédito, mas não os eliminou. Alexandre Cruz explica que, embora o Produto Interno Bruto (PIB) tenha segurado os impactos inicialmente, o cenário mudou drasticamente. Desde o final do ano passado e, especialmente no primeiro semestre deste ano, nenhuma medida tem sido suficiente para mitigar as dificuldades das empresas em honrar suas obrigações financeiras.

Os números corroboram essa visão. No ano passado, os bancos tradicionais registraram um crescimento de cerca de 9,2% em suas carteiras de crédito, um avanço real baixo, considerando a Selic acima de 14% e o spread bancário. Já neste primeiro semestre, esse crescimento caiu para algo entre 8,1% e 8,2%. Paralelamente, as emissões no mercado de capitais, como CRIs, CRAs e debêntures, que no ano passado compensavam a retração bancária, sofreram uma queda expressiva, entre 12% e 14%.

“Estamos numa situação em que nem os bancos incumbentes nem o mercado de capitais estão dando dívida suficiente para quem merece”, afirma Cruz. Essa falta de liquidez generalizada é o que ele define como uma “pane seca”, a ausência de combustível financeiro para as operações empresariais. Essa condição, mais do que uma dívida impagável, é o que verdadeiramente quebra uma companhia, pois impede o pagamento de fornecedores e funcionários.

Como Navegar na Falta de Liquidez: Oportunidades e Cuidados

A escassez de liquidez no mercado de crédito privado exige cautela e discernimento. Cruz alerta que mesmo empresas sólidas podem enfrentar dificuldades e, eventualmente, pedir recuperação judicial. No entanto, essa mesma escassez cria um ponto de oportunidade: a possibilidade de investir em bons negócios que enfrentam problemas temporários devido à “seca” do dia a dia financeiro.

Na área de fundos imobiliários, a JiveMauá adota a estratégia de financiar ativos estratégicos para as companhias, com foco especial no setor de logística. Cruz explica que, em casos de recuperação judicial de um inquilino, a gestora vê isso como uma oportunidade para aumentar sua posição, adquirindo ativos a preços mais baixos e garantindo um dividend yield maior no futuro.

Em relação ao crédito privado, a filosofia da JiveMauá, através da família BossaNova, é estruturar as próprias operações, em vez de adquirir créditos originados por terceiros. A lógica é que, quando um banco com décadas de relacionamento e capilaridade deixa de emprestar para uma grande empresa, isso é um sinal de alerta. “Se existe algo que está sendo vendido no mercado pelos bancos de investimento, pelos bancos que já têm aquela informação, não é que tudo é ruim”, pondera Cruz. “Mas a gente tem muita desconfiança de que, se estivesse ainda muito bom, os próprios bancos incumbentes estariam emprestando e suprindo aquela demanda financeira.”

A Prova de Fogo da JiveMauá: Selecionando Empresas em Crise

A JiveMauá tem um critério rigoroso para selecionar empresas em momentos de dificuldade. A premissa fundamental é que a geração de caixa da companhia seja suficiente para cobrir o serviço da dívida e ainda permitir alguma amortização. Atendida essa condição básica, a análise se aprofunda nos prazos e na sustentabilidade do negócio.

“Precisa ter muita disciplina e precisa saber muito fazer a conta, entender o negócio do cliente, do empresário, muito na última linha do balanço, ou seja, quanto gera de caixa”, enfatiza Cruz. Essa geração de caixa deve ser robusta o suficiente para amortizar parte da dívida e pagar seus encargos com uma margem de segurança. Encontrar setores e empresas que atendam a esses requisitos tem se tornado cada vez mais desafiador no atual ambiente econômico.

A gestora demonstra preferência por setores de infraestrutura, como tecnologia, cabeamento, data centers, concessões, energia e mobilidade, devido à maior previsibilidade e à presença de ativos reais. O varejo, por outro lado, exige maior cautela. No agronegócio, apesar dos choques recentes, Cruz enxerga oportunidades, mesmo após eventos como a guerra na Ucrânia e a menor demanda chinesa.

Cruz utiliza uma analogia para descrever a situação: “Eu brinco que, quando a gente tem redução de crédito dos incumbentes, é igual a emagrecer de canetinha. Vai emagrecer? Vai, mas vai cortar gordura e vai cortar músculo.” Ele ressalta que é difícil para bancos de grande porte ajustarem a redução de crédito de forma precisa, o que acaba por gerar oportunidades em setores e empresas que, de outra forma, não seriam consideradas.

Special Situations: Oportunidades em Ativos Estressados

A terceira frente de atuação da JiveMauá, os fundos de “special situations” (special sits), é onde Alexandre Cruz demonstra maior otimismo, ainda que com ressalvas sobre o timing ideal de entrada. Ele define um ativo estressado como algo “fora das condições normais de temperatura e pressão”, que pode apresentar problemas de posse, trabalhistas, penhoras, discussões ambientais ou de propriedade.

A estratégia nesses fundos se desdobra em três frentes: emprestar para empresas em situação crítica, mas ainda operacionais, com alongamento de dívida e garantias adequadas; comprar dívida corporativa já em default (NPL) com desconto, buscando recuperação via patrimônio pessoal dos avalistas; ou uma combinação das duas, adquirindo créditos com desconto, injetando capital novo e auxiliando na reestruturação da companhia.

Cruz observa que, frequentemente, quem levou a empresa ao problema não é quem a tirará dele. Ele cita os casos de Americanas e Casas Bahia como exemplos de reestruturações que envolveram a conversão de dívida em participação acionária. A essência da tese é entender o que realmente quebra uma companhia: a “pane seca”, a falta de caixa, e não necessariamente uma dívida impagável, para a qual existem ferramentas jurídicas de renegociação.

Conclusão Estratégica: Navegando a Crise de Crédito com Disciplina e Visão

A crise de crédito atual no Brasil, marcada pela escassez de liquidez e altas taxas de juros, impõe desafios significativos, mas também revela oportunidades para investidores e empresários com visão estratégica e disciplina. A redução da oferta de crédito pelos canais tradicionais força uma reavaliação dos modelos de negócio e das fontes de financiamento, abrindo espaço para soluções alternativas como os fundos de Special Situations.

O impacto econômico direto se manifesta no aumento da inadimplência e na dificuldade de acesso a capital para expansão ou mesmo para a operação diária. Indiretamente, a restrição de crédito pode desacelerar o crescimento econômico e afetar o valuation de empresas que dependem de alavancagem. Para investidores, a oportunidade reside em identificar empresas sólidas que enfrentam dificuldades de fluxo de caixa temporárias, oferecendo capital em troca de participação ou em condições de dívida vantajosas.

Para empresários, a lição é a necessidade de manter uma gestão de caixa rigorosa e diversificar as fontes de financiamento. A tendência futura aponta para um mercado de crédito mais seletivo, onde a capacidade de geração de caixa e a solidez do modelo de negócio serão ainda mais cruciais. O cenário provável é de consolidação, com empresas mais resilientes ganhando espaço e oportunidades de investimento surgindo em nichos específicos e em reestruturações bem-sucedidas.

Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.

O que você pensa sobre este cenário de crédito no Brasil? Quais oportunidades você enxerga? Compartilhe sua opinião nos comentários!

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Vinícius Hoffmann Machado
Fundador · Eruption Global

Engenheiro de Produção e especialista em finanças corporativas com mais de 13 anos de experiência em gestão estratégica de custos, planejamento orçamentário e análise de mercado. Fundador da Eruption Global, portal dedicado à análise econômica aplicada.

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