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Mercado Financeiro

Canola: A Revolução Amarela no Rio Grande do Sul Impulsionada pelo Biodiesel e Novas Oportunidades Agrícolas

Por Vinícius Hoffmann Machado27 ago 20268 min de leitura
Canola: A Revolução Amarela no Rio Grande do Sul Impulsionada pelo Biodiesel e Novas Oportunidades Agrícolas

Resumo

A Canola Floresce no Rio Grande do Sul: Um Fenômeno Impulsionado pela Indústria de Biocombustíveis e Vantagens Agrícolas

O Rio Grande do Sul está testemunhando uma transformação agrícola notável com a ascensão da canola. Em um trajeto que corta o estado, paisagens antes dominadas por outras culturas agora se tingem de um vibrante amarelo, sinalizando a expansão de uma oleaginosa que se tornou protagonista inesperada.

Impulsionada principalmente pela crescente demanda da indústria de biocombustíveis, a área plantada com canola no estado registrou um salto expressivo de 74% em apenas uma safra, atingindo 366 mil hectares neste ano, segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O Rio Grande do Sul consolida sua posição como o principal produtor nacional de canola, respondendo por quase toda a área plantada no país.

Essa ascensão contrasta com o passado recente, onde a canola era negociada com um desconto significativo em relação à soja. A mudança de cenário é um reflexo direto do aquecimento do mercado de biocombustíveis, que reposicionou a canola como uma matéria-prima de alto valor, negociada atualmente com um prêmio sobre a saca de soja.

Fonte 1

A Virada do Jogo: Biodiesel e a Nova Projeção de Mercado da Canola

A canola, antes vista com um certo ceticismo no mercado gaúcho, encontrou na indústria de biocombustíveis seu principal motor de crescimento. Thiago Milani, diretor de commodities da 3tentos, explica que o cenário mudou drasticamente. “A canola era negociada com um desconto de mais ou menos 10% sobre a soja. Isso perdurou por muito tempo no mercado aqui, antes do crescimento do mercado de biocombustíveis”, relata.

Atualmente, o panorama é outro. A canola é negociada com um prêmio de 5 a 10 reais sobre a saca de soja. “Não quer dizer que vai ser sempre assim. Vai depender do preço do óleo para balizar. Ainda é um mercado muito novo”, pondera Milani.

A 3tentos, com uma fábrica de biodiesel em Ijuí (RS), é um exemplo prático dessa transformação. A empresa investiu R$ 60 milhões para adaptar seus equipamentos, originalmente projetados para soja, à produção de biodiesel a partir da canola. Essa flexibilidade industrial é crucial para capitalizar o potencial da oleaginosa.

Vantagem Competitiva: O Dobro de Óleo e Margens Atrativas

A preferência da indústria pela canola em detrimento da soja, no contexto do biodiesel, reside em uma vantagem intrínseca: o teor de óleo. A canola apresenta um percentual de óleo que varia entre 39% e 42%, enquanto a soja entrega cerca de 20%. O restante, em ambos os casos, se transforma em farelo.

Com o óleo de canola sendo negociado a aproximadamente R$ 6 mil a tonelada, o balanço para a produção de biodiesel se torna altamente atrativo. Milani destaca que a receita proveniente do óleo de canola pode ser quase três vezes maior que a do farelo. “A canola não está muito distante do preço da soja, mas entrega o dobro de óleo, o que tende a nos dar uma margem melhor”, afirma.

Diante desse potencial, a 3tentos originou cerca de 70 mil toneladas de canola no ano passado e ambiciona alcançar 160 mil toneladas neste ano, o que permitiria à sua fábrica operar por cinco meses utilizando essa matéria-prima. A expectativa é que a expansão do uso de canola seja ainda maior com projetos como o da Refinaria Riograndense, que estuda a produção em larga escala de SAF (combustível de aviação sustentável).

Ajustes Industriais e Desafios Agronômicos na Jornada da Canola

Para que a canola ganhasse protagonismo, a 3tentos precisou implementar etapas adicionais em seu processo de produção de biodiesel. Comparada à soja, a canola exige uma prensagem adicional para extrair seu óleo. O processo envolve o esmagamento inicial, seguido por um banho de solvente para separar o óleo restante do farelo, alcançando assim o teor total de óleo da cultura.

O diretor industrial da 3tentos, Leandro Carbone, explica que o processo de prensagem tem sido aprimorado continuamente. “A gente comprou uma tecnologia que funcionou por um tempo, mas não performou dentro da capacidade que gostaríamos. Daí fizemos um novo investimento para essa safra, que está funcionando”, comenta.

A expectativa é que, com os aprimoramentos, o custo operacional da canola se aproxime ao da soja. Embora as prensas adicionais demandem energia, outros insumos e processos utilizados na produção a partir da soja não são necessários para a canola. “Ainda vamos entender mais com a escala, mas a expectativa é que fique muito parecido no final, em reais por tonelada esmagada”, afirma Carbone.

Do ponto de vista agronômico, a canola também apresenta vantagens para o produtor gaúcho. Em média, os gastos com insumos para uma lavoura de canola rendem entre 10 a 12 sacas de resultado líquido por hectare, um desempenho superior ao da soja e do trigo. A principal forma de aquisição pela 3tentos é através do sistema de barter, onde o grão é trocado por insumos.

A empresa mantém um centro tecnológico de mais de 30 hectares em Santa Bárbara do Sul (RS) para testes de manejo e disseminação de conhecimento aos produtores locais. Tales Pezzini, produtor que gerencia 1,1 mil hectares da empresa familiar, plantou 130 hectares de canola este ano em áreas que antes seriam destinadas ao trigo.

Pezzini observa que, embora o trigo tenha uma produtividade melhor, ele exige mais aplicações de defensivos e possui exigências de qualidade que podem gerar descontos no preço final. Na canola, ainda não há um padrão de qualidade estabelecido, o que proporciona maior previsibilidade na receita. A 3tentos estuda a implementação de um sistema de avaliação de qualidade, inspirado em modelos uruguaios, com prêmios baseados em parâmetros específicos.

No entanto, o cultivo da canola também apresenta desafios. Semeada na segunda safra de inverno, ela pode impactar o plantio da soja subsequente. “Quando você colhe canola, ela deixa pouca palha no sistema. O solo fica desprotegido para plantar a soja. Num ano de excesso de chuva, isso é um problema, porque você pode ter erosão. Vou ter o lucro de 10 sacas de canola em si, mas isso vai fazer qual impacto em sacas de soja lá na frente?”, questiona Pezzini.

Essa incerteza leva tanto produtores quanto a 3tentos a preverem que a canola não ocupará a totalidade das áreas de soja no Rio Grande do Sul. A expectativa é que ocorra uma rotação entre as áreas de trigo e canola. A 3tentos, que detém cerca de 30% do mercado de canola no Brasil, projeta que a área plantada com a oleaginosa no estado possa facilmente alcançar um milhão de hectares nos próximos dois a três anos, embora distante dos 7 milhões de hectares da soja.

Conclusão Estratégica Financeira

A expansão da canola no Rio Grande do Sul representa um impacto econômico significativo, diversificando a matriz agrícola do estado e gerando novas cadeias de valor, especialmente no setor de biocombustíveis. A maior rentabilidade por hectare, impulsionada pelo alto teor de óleo e pela demanda industrial, oferece uma oportunidade de receita adicional para os produtores, embora a volatilidade dos preços do óleo e a incerteza sobre os custos de produção em larga escala representem riscos.

Para a indústria, a canola surge como uma matéria-prima estratégica, permitindo a diversificação da produção de biodiesel e a exploração de novos mercados, como o de SAF. Os investimentos em adaptação industrial, como os realizados pela 3tentos, indicam um movimento de antecipação às tendências de mercado e uma busca por otimização de custos e margens de lucro.

Investidores e gestores devem observar atentamente o desenvolvimento do mercado de canola, considerando tanto as oportunidades de crescimento na originação e processamento quanto os desafios agronômicos e a necessidade de consolidação de padrões de qualidade. A tendência aponta para uma coexistência com outras culturas, como a soja e o trigo, em um modelo de rotação que otimize o uso do solo e a sustentabilidade do sistema produtivo, com potencial para atingir um milhão de hectares em poucos anos.

Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.

O que você acha dessa nova onda amarela no campo gaúcho? Deixe sua opinião, dúvida ou crítica nos comentários!

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Vinícius Hoffmann Machado
Fundador · Eruption Global

Engenheiro de Produção e especialista em finanças corporativas com mais de 13 anos de experiência em gestão estratégica de custos, planejamento orçamentário e análise de mercado. Fundador da Eruption Global, portal dedicado à análise econômica aplicada.

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