A Dificuldade Crescente em Acessar Planos de Saúde Individuais no Brasil e os Motivos por Trás Dessa Realidade
Encontrar um plano de saúde individual no Brasil, especialmente um sem coparticipação, tornou-se uma tarefa hercúlea para muitos consumidores. A percepção geral é de escassez, mas a raiz do problema, segundo Helton Freitas, presidente da Seguros Unimed, vai além da simples falta de oferta. Uma complexa teia regulatória e a dinâmica do mercado criam um cenário onde o produto individual se torna economicamente inviável para as operadoras.
A explicação de Freitas aponta para um desequilíbrio gerado pela própria regulação. Restrições severas quanto à rescisão de contratos com beneficiários, limites rígidos nos reajustes anuais autorizados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e o crescente volume de judicialização das relações entre planos e clientes elevam os custos a patamares proibitivos para o modelo individual.
Além dos fatores regulatórios, o executivo destaca um aspecto comportamental relevante. Enquanto em outros ramos de seguro, como o automotivo, a tentativa de contratar uma apólice após um sinistro é claramente vista como fraude, no setor de saúde suplementar, a sociedade tende a ser mais tolerante com práticas semelhantes. A busca por um plano de saúde em meio a uma doença grave, embora compreensível do ponto de vista humano, representa, sob a ótica securitária, um risco similar ao de segurar um carro após um acidente, desestabilizando a precificação e a sustentabilidade do mercado.
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A Coparticipação Como Ferramenta de Equilíbrio e Cultura Brasileira
Na visão de Helton Freitas, a coparticipação surge como um mecanismo essencial para mitigar os custos e trazer equilíbrio financeiro aos planos de saúde. Este modelo, onde o beneficiário arca com uma pequena fração de cada procedimento utilizado, como consultas e exames, permite que o valor base da mensalidade seja significativamente menor. A coparticipação, ao alinhar os incentivos entre beneficiário e operadora, promove um uso mais consciente dos serviços de saúde.
Freitas observa que em regiões onde a coparticipação é amplamente aceita, os preços dos planos tendem a ser mais acessíveis. No entanto, ele aponta São Paulo como um mercado com uma cultura de coparticipação ainda incipiente. A Seguros Unimed, contudo, tem se empenhado em introduzir e consolidar este modelo em suas apólices, buscando demonstrar seus resultados positivos na gestão de custos e na oferta de planos mais viáveis.
O Modelo de Remuneração Médica e o Desafio do “Fee for Service”
O presidente da Seguros Unimed vai além das questões regulatórias e de precificação, apontando para um problema estrutural na remuneração da medicina brasileira. O modelo predominante, conhecido como fee for service, remunera o médico por procedimento realizado, e não pela manutenção da saúde do paciente. Isso cria um incentivo intrínseco para a realização de mais consultas, exames e cirurgias, independentemente da real necessidade ou do benefício a longo prazo para o paciente.
Esse sistema, que prioriza o ‘curativismo’, mostra-se cada vez mais inadequado em um cenário de transição demográfica, onde as pessoas vivem mais e, consequentemente, convivem com doenças crônicas por décadas. A estratégia de apenas tratar os sintomas de condições como diabetes e hipertensão, que exigem acompanhamento contínuo, torna-se insustentável e custosa sob o modelo atual.
Prevenção Quaternária e a Busca por um Sistema de Saúde Mais Eficiente
Para combater o excesso de procedimentos e a ineficiência do modelo curativista, a Seguros Unimed tem explorado novas abordagens. Uma delas é a parceria com organizações especializadas em práticas médicas, como a canadense com a qual colaboraram, para discutir e aprimorar a conduta dos próprios médicos. Ao promover debates fundamentados sobre a prática médica, com a participação de especialistas, busca-se elevar a qualidade e a eficiência dos atendimentos.
Freitas introduz o conceito de prevenção quaternária, que visa evitar os danos e os custos gerados pelo próprio sistema de saúde. Um exemplo prático é a abordagem de cirurgias de coluna, onde, em muitos casos, um tratamento fisioterapêutico prolongado e bem conduzido pode ser uma alternativa mais segura e eficaz do que a intervenção cirúrgica, que acarreta riscos e pode gerar novas sobrecargas biomecânicas no corpo.
Conclusão Estratégica: Reequilibrando o Mercado de Planos de Saúde Individuais
A análise de Helton Freitas revela que o desafio para tornar os planos de saúde individuais viáveis no Brasil reside em múltiplos fatores interligados: a necessidade de ajustes regulatórios que permitam maior flexibilidade nas rescisões e reajustes, a conscientização da sociedade sobre a importância de um uso responsável dos serviços de saúde e a reformulação do modelo de remuneração médica. A adoção de práticas como a coparticipação e a prevenção quaternária são passos importantes para mitigar os custos crescentes e promover um sistema mais sustentável.
Do ponto de vista econômico, a persistência do modelo atual pode levar a um aumento contínuo dos custos para os consumidores e a uma maior restrição na oferta de planos individuais, impactando negativamente a saúde financeira das operadoras e o acesso da população a cuidados médicos. Oportunidades de negócio podem surgir para empresas que desenvolvam soluções inovadoras em gestão de saúde, focadas em prevenção e eficiência, alinhando os incentivos de todos os envolvidos.
Para investidores e gestores do setor, a tendência aponta para a consolidação de modelos que integrem tecnologia, medicina baseada em evidências e uma precificação mais aderente ao risco. A capacidade de inovar e adaptar-se a um ambiente regulatório e social em constante mudança será crucial para o sucesso futuro. A minha leitura do cenário é que a pressão por um sistema de saúde mais acessível e eficiente continuará a impulsionar transformações significativas no mercado de planos de saúde.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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