3tentos em Alerta: Lucratividade do 2º Trimestre Abaixo do Esperado Despenca Ações e Gera Dúvidas sobre Comunicação com o Mercado
As ações da 3tentos estenderam sua sequência de perdas na quarta-feira, atingindo uma desvalorização de cerca de 20% em dois dias. O movimento de venda foi desencadeado após executivos da companhia alertarem analistas sobre resultados significativamente mais fracos do que o previsto em suas operações de esmagamento de soja e produção de biodiesel no segundo trimestre.
A queda expressiva, que chegou a mais de 6% no início da tarde em São Paulo, acumulando um recuo de 16% na terça-feira, levou os papéis a seus menores níveis em quase dois anos. Esse cenário de desvalorização acentuada seguiu-se a encontros entre a alta administração da 3tentos e analistas de grandes bancos, impactando negativamente a percepção dos investidores sobre os resultados de curto prazo da empresa e suas práticas de comunicação.
Embora alguns analistas já antecipassem uma deterioração nos lucros devido à desvalorização dos preços do biodiesel, os comentários da 3tentos indicaram que a queda seria consideravelmente mais acentuada do que as projeções iniciais. A incerteza gerada por essas informações, aliada a outros fatores de mercado, exige uma análise aprofundada do desempenho e das perspectivas futuras da companhia.
Margens de Esmagamento de Soja e Biodiesel Sob Pressão
Relatórios de análise indicam que o negócio de esmagamento de soja da 3tentos, que historicamente gerou um lucro bruto entre US$ 80 e US$ 90 por tonelada métrica, alcançou US$ 106 na métrica no primeiro trimestre. Contudo, as projeções para o segundo trimestre apontam para uma queda para cerca de US$ 75 por tonelada métrica.
Caso essa deterioração se confirme, analistas estimam uma redução de aproximadamente US$ 20 milhões (equivalente a R$ 100 milhões) no lucro bruto trimestral. Essa revisão de estimativas já está levando analistas a ajustar suas projeções antes do divulgação oficial dos resultados da empresa, agendada para 14 de agosto, e impactando as recomendações de retorno para as ações.
O Citi, por exemplo, rebaixou seu preço-alvo para as ações de R$ 20 para R$ 17, com o analista Gabriel Barra sinalizando a possibilidade de a empresa reduzir suas projeções para as operações de biocombustíveis. Essa revisão considera a incerteza em torno da implementação do mandato de mistura de biodiesel de 16% (B16) no Brasil, que ainda não entrou em vigor, e atrasos no início da produção da unidade de etanol de milho da 3tentos.
Desafios Adicionais: Preços de Óleo de Soja e Custos Operacionais
A viabilidade econômica da compra de óleo de soja de terceiros para abastecer a planta de biodiesel da 3tentos, uma opção considerada pela empresa, parece estar diminuindo. O aumento nos preços do óleo de soja, em contrapartida à queda nos preços do biodiesel nos últimos meses, torna essa alternativa menos atrativa, segundo análises recentes.
Além disso, os gastos com vendas, gerais e administrativos (SG&A) continuam a ser um ponto de atenção. Esses custos já haviam chamado a atenção nos resultados do primeiro trimestre e podem representar um ônus adicional para a lucratividade da companhia no período.
A volatilidade inerente ao setor de agronegócio, especialmente em segmentos como o esmagamento de soja, que é relativamente novo para investidores de mercado público, torna as projeções de lucros mais desafiadoras. Lacunas entre as previsões do mercado e os resultados reportados já causaram instabilidade entre investidores em ocasiões anteriores.
Comunicação com o Mercado: Transparência e Assimetria de Informação
O episódio recente também levantou questionamentos sobre as práticas de comunicação da 3tentos com seus investidores. A reunião da empresa com um grupo seleto de analistas, sem uma divulgação simultânea do conteúdo para o restante do mercado, gerou preocupações sobre potencial assimetria de informação.
Em resposta a um questionamento da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), a 3tentos confirmou a realização das reuniões, mas declarou que as informações discutidas já eram públicas e não se qualificavam como informação material, conforme a Resolução CVM 44. A empresa argumentou que os executivos abordaram um cenário de agronegócio mais desafiador, com preços mais baixos para farelo de soja e biodiesel, e custos mais elevados, especialmente frete.
Qualquer conclusão sobre o impacto nos resultados operacionais e financeiros da 3tentos refletiu os modelos e premissas dos próprios analistas. Embora reuniões entre empresas e analistas sejam práticas de mercado permitidas, a CVM exige a divulgação ampla de informações materiais por meio de comunicados formais ao mercado.
Perspectiva de Longo Prazo e Valuation Atrativo
Apesar dos desafios de curto prazo, tanto BTG Pactual quanto Citi mantiveram recomendações de compra, argumentando que o caso de investimento de longo prazo para a 3tentos permanece intacto. Os analistas do BTG Pactual, por exemplo, afirmam não haver motivos para considerar a atual deterioração como estrutural, destacando a natureza inerentemente volátil das margens no segmento industrial da empresa, conforme demonstrado pelo seu histórico.
O BTG projeta uma receita líquida consolidada para o segundo trimestre de cerca de US$ 782 milhões (R$ 4 bilhões), um aumento de 13% em relação ao ano anterior. No entanto, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) é projetado em queda de 48%, para aproximadamente US$ 22 milhões (R$ 115 milhões), resultando em uma margem de 2,9%, potencialmente a mais baixa em dois anos.
O banco considera que a queda de aproximadamente 15% no valor de mercado da empresa parece excessiva diante de uma deterioração trimestral que, em sua visão, terá implicações limitadas para a lucratividade de longo prazo. Adicionalmente, o valuation da ação, negociada a cerca de seis vezes os lucros projetados para 2027, é considerado atrativo e improvável de se manter nesse patamar no próximo ano.
Conclusão Estratégica Financeira
A recente desvalorização das ações da 3tentos, impulsionada por alertas sobre margens mais baixas no esmagamento de soja e produção de biodiesel, reflete a volatilidade inerente ao setor de agronegócio. O impacto econômico direto se manifesta na redução da lucratividade trimestral e na pressão sobre as margens operacionais. Indiretamente, a incerteza gerada pode afetar a confiança do investidor e o custo de capital da empresa a médio prazo.
Os riscos financeiros residem na possibilidade de uma deterioração mais prolongada das condições de mercado, como a persistência de preços baixos para biodiesel e custos de matéria-prima elevados, além de atrasos na implementação de políticas regulatórias que favoreçam o setor. Por outro lado, as oportunidades podem surgir com a eventual recuperação dos preços das commodities, a normalização das cadeias de suprimentos e a consolidação do setor, que pode beneficiar empresas com escala e eficiência operacional.
Para investidores, a volatilidade atual pode representar uma oportunidade de entrada a preços mais atrativos, desde que a tese de investimento de longo prazo seja mantida e os riscos de curto prazo sejam considerados. Para gestores e empresários do setor, a situação reforça a necessidade de uma gestão de custos rigorosa, diversificação de fontes de receita e estratégias de precificação flexíveis para mitigar os efeitos das flutuações de mercado.
Minha leitura do cenário é que, apesar dos solavancos de curto prazo, a indústria de biocombustíveis e derivados de soja no Brasil possui fundamentos sólidos para crescimento futuro, impulsionados pela demanda global por energia renovável e pela importância do agronegócio na economia nacional. A tendência futura aponta para uma recuperação gradual das margens, à medida que as condições de mercado se estabilizem e a eficiência operacional seja aprimorada. O valuation atual, considerando a perspectiva de longo prazo, pode ser considerado atrativo por investidores com tolerância ao risco.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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