El Niño Ameaça Colheita de Cana-de-Açúcar: Chuvas em Excesso Podem Reduzir Qualidade e Impactar Safra 2026/27 no Centro-Sul
O fenômeno El Niño lança uma sombra sobre a colheita da cana-de-açúcar no segundo semestre, colocando em xeque a produtividade da próxima safra. A expectativa de chuvas acima do normal, característica histórica do evento climático, pode comprometer significativamente os níveis de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), um indicador crucial da qualidade da matéria-prima.
Essa preocupação foi compartilhada por Marina Regina Zechin de Lucca, analista de açúcar e etanol da consultoria agro do Itaú BBA. Embora o banco projete um aumento na moagem de cana para a safra 2026/27, a incerteza climática suspende a precisão de volumes e produtividades, dependendo diretamente da capacidade das usinas de aproveitar o tempo disponível para a colheita e processamento.
O cenário atual, apesar de indicar um volume expressivo de cana disponível, exige condições climáticas favoráveis para que a colheita e o processamento ocorram de forma eficiente. A analista ressalta que o El Niño traz consigo “riscos de mais cana bisada e piora da qualidade da matéria-prima”, impactando diretamente a rentabilidade do setor.
Impactos Regionais do El Niño na Cana-de-Açúcar
Os efeitos do El Niño na produção de cana-de-açúcar variam conforme a região. Enquanto o Nordeste tende a enfrentar um cenário de estresse hídrico com menor incidência de chuvas, o Centro-Oeste, historicamente afetado por fortes episódios de El Niño, como o previsto para este ano, deve registrar precipitações acima da média.
No Centro-Sul, a principal região produtora, a expectativa é de uma deterioração na qualidade da matéria-prima, refletida na redução dos quilos de ATR por tonelada de cana. Além disso, há um risco iminente de paralisações mais longas e relevantes nas usinas, o que pode afetar o cronograma de moagem e a eficiência operacional.
Essa apreensão não é exclusiva do Itaú BBA. No final de maio, Felipe Vicchiato, CFO da São Martinho, já havia manifestado preocupações semelhantes, informando que a companhia estava acelerando os trabalhos de campo para mitigar potenciais problemas no segundo semestre. A estratégia de antecipar a moagem o máximo possível visa encurtar a safra e evitar perdas com cana em pé.
Mudança na Sazonalidade da Safra e Pressão nos Preços do Etanol
O fenômeno climático também está alterando a sazonalidade histórica da safra de cana. Chuvas durante o verão, que causaram paradas nas usinas, levaram a uma moagem represada que está sendo realizada agora. Um indicativo disso foi o recorde de moagem em março, atingindo 19,4 milhões de toneladas de cana.
Essa mudança na sazonalidade, combinada com o avanço do etanol de milho, pode gerar uma pressão sobre os preços do etanol justamente no período em que o biocombustível costuma apresentar melhor retorno financeiro. Isso compromete uma fonte de receita importante para o setor no ano-safra.
Adicionalmente, o mercado de etanol enfrenta incertezas regulatórias, como a demora na introdução do E32 e a volatilidade nos preços da gasolina, influenciada pelo fim da subvenção governamental para mitigar os efeitos da guerra no Irã sobre os combustíveis.
Perspectivas para o Açúcar e o Mix de Produção
Para o açúcar, o Itaú BBA mantém uma perspectiva de baixa cotação no curto prazo em Nova York. Essa visão é fundamentada na ampla oferta disponível, na posição líquida vendida dos fundos e em um ambiente ainda frágil para o etanol, que limita o suporte ao mercado açucareiro.
No entanto, uma melhora no cenário é esperada a partir da próxima safra (2027/28). O banco projeta um ambiente mais construtivo, com um ligeiro déficit global, o que pode impulsionar as cotações, ainda que sem altas contundentes. A expectativa para o mix açucareiro na safra 2026/27 do Centro-Sul é de 46,4%, resultando na fabricação de 39,4 milhões de toneladas, uma redução de 1 milhão de toneladas em relação à safra 2025/26.
Conclusão Estratégica Financeira: Navegando as Incertezas do El Niño
O El Niño representa um desafio multifacetado para o setor de cana-de-açúcar, com impactos econômicos diretos na produtividade e na qualidade da matéria-prima, além de efeitos indiretos nos preços do etanol e do açúcar. A principal ameaça reside na redução do ATR, que diminui a rentabilidade das usinas, e na possibilidade de paralisações prolongadas, que afetam a eficiência operacional e a capacidade de processamento.
Os riscos financeiros incluem a potencial queda nas margens de lucro devido à menor qualidade da cana e à pressão sobre os preços do etanol. Por outro lado, a volatilidade pode criar oportunidades para estratégias de hedge e gestão de risco mais assertivas. Para os investidores, o cenário exige cautela, com atenção à gestão das empresas e à sua capacidade de adaptação às condições climáticas adversas e às flutuações de mercado.
A mudança na sazonalidade da safra, com a concentração da moagem em períodos menos tradicionais, pode afetar a precificação do etanol, exigindo uma análise aprofundada das dinâmicas de oferta e demanda. A tendência futura aponta para uma maior necessidade de previsibilidade e resiliência no setor, com investimentos em tecnologia e práticas agrícolas que minimizem os efeitos das variações climáticas.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
E você, como avalia os impactos do El Niño na safra de cana? Compartilhe sua opinião, dúvidas ou críticas nos comentários abaixo!



