Sicredi ajusta projeção para crédito rural: um termômetro do cenário econômico para o agronegócio?
A expectativa de crescimento mais comedido na carteira de crédito rural do Sicredi para a safra 2026/27, saindo de um salto de 11,5% para uma projeção de 4,4%, pode ser um indicativo importante das novas realidades enfrentadas pelo agronegócio brasileiro. A maior cooperativa de crédito do país, acostumada a expansões de dois dígitos, lança um sinal de alerta sobre a necessidade de adaptação a um ambiente econômico mais desafiador.
Essa projeção, que prevê destinar R$ 72,2 bilhões na temporada, reflete, segundo o superintendente de agronegócio do Sicredi, Vitor Moraes, uma demonstração de “maturidade” diante de um cenário marcado por margens apertadas e um aumento na inadimplência. Contudo, a cooperativa reafirma seu compromisso em continuar apoiando o produtor rural, essencial para o desenvolvimento do país.
A proximidade do Sicredi com seus cooperados, que são também seus clientes, tem sido um fator crucial para manter a inadimplência sob controle. Em 31 de março, o índice na carteira de crédito rural atingiu 1,9%, um aumento em relação ao ano anterior (1,1%), mas ainda significativamente inferior à média de mercado, que no Banco do Brasil, por exemplo, chegou a 6,2% no mesmo período. Essa gestão de risco, aliada à busca por fontes de financiamento mais acessíveis, compõe a estratégia da cooperativa.
Cautela na projeção: um reflexo da conjuntura econômica?
A projeção de crescimento de 4,4% para a safra 2026/27, totalizando R$ 72,2 bilhões, representa uma desaceleração significativa em comparação com os 11,5% registrados na safra anterior. Vitor Moraes, superintendente de agronegócio do Sicredi, atribui essa moderação à necessidade de maturidade e adaptação a um cenário econômico que apresenta margens mais apertadas para os produtores e um aumento geral na inadimplência.
Essa postura mais cautelosa não significa, no entanto, uma redução no apoio ao setor. Moraes enfatiza a responsabilidade da cooperativa em “continuar financiando o agronegócio e desenvolvendo esse setor tão relevante para o país”. A estratégia é, portanto, de um crescimento mais sustentável e alinhado às condições atuais do mercado, buscando otimizar os recursos disponíveis.
Gestão da inadimplência: o papel da proximidade com o cooperado
Um dos pontos fortes do Sicredi na gestão de sua carteira de crédito rural é a relação próxima com seus cooperados. Essa proximidade, que se traduz em um entendimento mais aprofundado das necessidades e desafios de cada produtor, tem sido fundamental para manter os níveis de inadimplência em patamares controlados, mesmo diante de um cenário macroeconômico adverso.
Em 31 de março, a inadimplência na carteira de crédito rural do Sicredi estava em 1,9%. Embora represente uma elevação em relação ao índice de 1,1% registrado um ano antes, o número se mostra consideravelmente menor quando comparado à média de outras instituições financeiras que operam no segmento. No Banco do Brasil, por exemplo, a inadimplência rural alcançou 6,2% na mesma data.
“Comparando com o nosso histórico, vemos níveis de inadimplência maiores do que o histórico, mas muito menores do que a média de mercado”, ressaltou o superintendente do Sicredi. Essa performance reforça a eficácia do modelo cooperativista em gerenciar riscos em períodos de maior volatilidade econômica.
Busca por funding: alternativas para mitigar o custo do crédito
Ainda com a taxa Selic em patamares elevados, o Sicredi intensifica a busca por alternativas de captação de recursos a custos mais baixos. As instituições financeiras multilaterais têm se apresentado como parceiros importantes nesse esforço. Em 2024, a cooperativa obteve US$ 297 milhões junto ao CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina) e à Jica (Agência de Cooperação Internacional do Japão).
Para 2025, uma parceria com o IFC (Corporação Financeira Internacional) prevê a liberação de até US$ 250 milhões. Essas captações externas são essenciais para diluir o custo do funding captado a CDI, que se torna mais oneroso com a taxa básica de juros elevada. A expectativa é que a queda da Selic, embora em ritmo mais lento do que o previsto anteriormente, continue a melhorar as condições de captação.
“Continuamos buscando fundings mais baratos diariamente, mas estão cada vez mais difíceis. Nossa expectativa de queda da Selic há seis meses era de uma velocidade maior, mas veio numa velocidade menor. Esperamos que continue em queda, porque melhora as condições do funding captado a CDI”, explicou Moraes.
Conclusão Estratégica Financeira: Adaptação e Resiliência no Agronegócio
A projeção mais modesta do Sicredi para o crescimento da carteira de crédito rural sinaliza uma adaptação necessária às atuais condições macroeconômicas. O aumento da inadimplência, embora controlado pela cooperativa, reflete pressões sobre as margens dos produtores rurais, impactadas por custos de produção elevados e, em alguns casos, por flutuações nos preços das commodities.
Os riscos financeiros residem na persistência de juros altos e na volatilidade climática, que podem agravar a inadimplência e limitar a capacidade de investimento. Por outro lado, a resiliência demonstrada pelo Sicredi na gestão de riscos e sua busca ativa por fontes de financiamento mais acessíveis representam oportunidades para a manutenção do fluxo de crédito, essencial para a produção agrícola.
Para investidores e gestores do setor, a leitura é de que o agronegócio brasileiro, apesar de sua pujança, exige estratégias de gestão financeira mais robustas e flexíveis. A tendência futura aponta para um cenário onde a eficiência operacional, a diversificação de culturas e a gestão de custos serão ainda mais cruciais para a sustentabilidade dos negócios rurais. A capacidade de as instituições financeiras, como o Sicredi, navegarem por essas águas turbulentas, mantendo o apoio ao produtor, definirá o ritmo de desenvolvimento do setor.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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