Copa do Mundo 2026: Camisas da Seleção Disparam, Mas Varejo de Moda Sofre com Jogo de Vendas Cruzadas
A paixão nacional pelo futebol, especialmente durante a Copa do Mundo, se traduz em um boom de vendas para artigos esportivos. No entanto, para o setor de moda tradicional, o torneio global representa um desafio estratégico, especialmente em um período crucial do ano. A antecipação do Mundial de 2026 já revela um padrão de consumo que beneficia categorias específicas, mas deixa outras em desvantagem, levantando debates sobre o impacto real do evento no varejo.
Enquanto camisas da seleção e itens temáticos ganham destaque, o fluxo de consumidores em lojas físicas de moda tende a diminuir. Essa dinâmica, conhecida como “efeito duplo”, cria um cenário de polarização nas vendas, onde alguns setores prosperam à custa de outros, exigindo estratégias adaptadas para mitigar perdas e capitalizar oportunidades.
A proximidade da Copa do Mundo de 2026, com jogos previstos para o final da tarde e início da noite, intensifica a preocupação de varejistas de moda. A mudança nos horários de partida pode afastar ainda mais o público dos shoppings e centros comerciais, justamente quando o inverno, estação de tíquetes médios mais altos, se aproxima, complicando ainda mais o planejamento e a execução de estratégias de vendas.
O Efeito Copa: Futebol em Alta, Moda em Baixa?
O mercado de artigos esportivos no Brasil é robusto, tendo movimentado impressionantes R$ 61,4 bilhões em 2025, com uma fatia significativa de R$ 20,5 bilhões proveniente de produtos ligados ao futebol. Este segmento abrange desde camisas e chuteiras até agasalhos e acessórios. Marcelo Prado, diretor da IEMI – Inteligência de Mercado, explica que a Copa do Mundo gera um “efeito duplo”: enquanto categorias de futebol prosperam, o varejo tradicional de moda sofre com a queda de circulação nas lojas físicas.
O desempenho da seleção brasileira é um fator determinante. Vitórias e avanços na competição impulsionam o engajamento do consumidor, aumentando a demanda por itens relacionados ao universo do futebol. Dados do Índice do Varejo Stone (IVS) já apontam para um crescimento de 1,3% em abril no segmento de vestuário, possivelmente refletindo os efeitos iniciais da Copa.
Guilherme Freitas, economista da Stone, confirma que parte desse avanço está ligada à venda de produtos associados ao torneio, uma tendência que deve se intensificar à medida que a Copa se aproxima. A expectativa geral é positiva para o segmento esportivo, com pesquisas indicando que cerca de 99,2 milhões de brasileiros planejam compras relacionadas ao evento.
Consumidores Focam em Uniformes e Bebidas, Ignorando o Guarda-Roupa Geral
As pesquisas de intenção de compra para a Copa de 2026 revelam um padrão claro: 60% dos brasileiros pretendem adquirir produtos ou serviços ligados ao torneio. Entre os itens mais procurados estão bebidas, petiscos, carnes para churrasco e cervejas. No varejo de moda, o uniforme do torcedor lidera as preferências, com 61% planejando comprar camisas oficiais ou temáticas, além de bandeiras e acessórios da seleção.
Contudo, essa concentração de interesse no universo do futebol tem um custo para o varejo de moda. “A Copa atrapalha o todo porque ela retira fluxo do varejo de moda”, afirma Prado. Durante os jogos, o público deixa de frequentar lojas físicas para assistir às partidas, um impacto especialmente sentido por operações localizadas em shoppings, que dependem de circulação espontânea.
A edição de 2026 promete agravar essa situação, com jogos no final da tarde e início da noite, horários tradicionalmente movimentados em centros comerciais. Isso significa uma potencial redução ainda maior no fluxo de pessoas nas lojas, afetando diretamente as vendas de moda em um período crítico.
Histórico de Quedas: A Copa no Varejo de Moda
Dados históricos da IEMI reforçam o impacto negativo da Copa do Mundo no varejo de moda e calçados. Em 2006, o setor registrou crescimento anual de 2%, mas uma queda de 3,8% nos meses do torneio. Em 2010, houve um avanço de 8,4% durante a Copa, contrastando com quedas em outras edições.
Já em 2014, o varejo caiu 1,1% no acumulado anual e recuou 3,3% nos meses da competição. Em 2018, a retração foi de 1% no ano e de 5,3% durante a Copa. O cenário mais recente, em 2022, mostrou uma queda anual de 0,5%, com uma acentuada retração de 13,6% nos meses do Mundial.
Para 2026, a IEMI projeta um crescimento anual de 1,2% no volume de peças vendidas, mas uma queda de 2,7% especificamente nos meses da Copa. Essa tendência sugere que o “efeito Copa” continuará sendo um fator de atenção para o setor de moda.
O Desafio do Inverno e a Janela de Oportunidade Perdida
A Copa do Mundo de 2026 coincide com o início da temporada de inverno, um período crucial para o varejo de vestuário devido ao tíquete médio mais elevado das coleções de frio. “O varejo de moda quer que o inverno seja no outono”, brinca Prado, ressaltando a importância do clima para impulsionar as vendas de peças mais caras.
A demora na chegada do frio pode prejudicar as vendas de coleções de inverno. A situação se agrava com datas importantes como o Dia das Mães e o Dia dos Namorados, que competem diretamente com o calendário da Copa. Em 2026, o Dia dos Namorados, em 12 de junho, cairá em plena competição, diluindo o foco do consumidor e dividindo a atenção com os jogos.
Estudos recentes projetam um crescimento moderado para a temporada de inverno de 2026 no varejo de moda, com um avanço de apenas 0,65% em volume de peças vendidas entre maio e agosto. Embora o faturamento deva crescer 4,2%, para R$ 63,34 bilhões, esse número pode ser ainda mais impactado pela dinâmica da Copa.
E-commerce: Um Refúgio Resiliente em Meio à Turbulência
O comércio eletrônico surge como um importante amortecedor para o impacto negativo da Copa do Mundo no varejo de moda. Atualmente, cerca de 10% das vendas de roupas no Brasil ocorrem online, e no segmento de calçados, essa participação chega a 15%. Essa modalidade de compra oferece uma alternativa para consumidores que podem priorizar o acompanhamento dos jogos em detrimento de visitas a lojas físicas.
Pesquisas recentes indicam um consumidor cada vez mais híbrido. Embora a maioria ainda pretenda fazer compras em lojas físicas, uma parcela significativa também planeja adquirir produtos pela internet, utilizando aplicativos de entrega e lojas online. Essa dualidade reforça a importância de uma estratégia omnichannel robusta para os varejistas.
A resiliência do e-commerce pode ajudar a mitigar parte da queda de fluxo em lojas físicas, permitindo que as marcas mantenham um canal de vendas ativo mesmo durante os horários de jogos. Para o varejo de moda, investir na experiência de compra online e na logística de entrega torna-se ainda mais estratégico neste período.
Conclusão Estratégica: Navegando a Copa com Inteligência Financeira
A Copa do Mundo de 2026 apresenta um cenário de contrastes para o varejo brasileiro. O impacto econômico direto no setor de artigos esportivos é inegável, com projeções de movimentar bilhões em produtos ligados ao futebol. No entanto, os efeitos indiretos sobre o varejo de moda tradicional são preocupantes, especialmente com a retração esperada no fluxo de consumidores em lojas físicas durante os meses do torneio.
Os riscos financeiros para o varejo de moda incluem a queda nas vendas de coleções de inverno, a perda de oportunidades em datas comemorativas e a redução do tíquete médio. Por outro lado, as oportunidades residem na capacidade de adaptação, como o fortalecimento do e-commerce e a criação de estratégias de marketing que integrem o espírito da Copa sem alienar o público de moda. Para investidores e gestores, a análise do desempenho de empresas como Grupo SBF em contrapartida a varejistas de moda mais expostos, como Lojas Renner, C&A Brasil e Guararapes, será crucial.
A tendência futura aponta para um consumidor cada vez mais segmentado e conectado, que transita entre o online e o offline. O cenário provável é que o varejo esportivo continue a prosperar durante o período da Copa, enquanto o varejo de moda precisará de estratégias inovadoras para garantir que o “efeito Copa” não se traduza em uma queda significativa de receita, especialmente no início da temporada de inverno.
Este conteúdo é de caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer ativo. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
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